Michele Leal: “Eu pude ser livre. E isso faz a diferença na vida das pessoas, não faz?”

Mineira radicada no Rio de Janeiro, Michele Leal une delicadeza e força em sua voz. Criada em meio a corais e aulas de piano, ela traz um canto natural e emocionante. Cantora, compositora e instrumentista, Michele busca ultrapassar barreiras e os limites de sua canção em seu trabalho autoral e também participando de projetos musicais como Mar Azul, Baile Primitivo e Banquete.

Foi a partir destes encontros e experimentos que surgiu o amadurecimento para a produção do seu disco recém-lançado “Peixe”, que conta com a direção musical de Domênico Lancellotti (Caetano Veloso, Fernanda Abreu, Adriana Calcanhotto).

Com dois trabalhos no currículo, “Jacarandá” (2013) e “Peixe” (2016), ela se afirma como uma das mais belas vozes da nova música popular brasileira.

O Divercidade entrevistou a Michele e esse papo delicioso você acompanha agora. Mas antes, ligue seu som e leia ouvindo as lindas músicas do novo trabalho da artista!

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Nome completo e nome artístico: Michele Leal Mendonça | Michele Leal

Cidade onde nasceu e onde escolheu para viver? Por que?

Nasci em Itajubá/MG, cidade tranquila e muito musical. Porém, escolhi o Rio pra morar porque amo essa cidade. Tenho uma ligação linda com essa terra e sua musicalidade. Gosto da atmosfera. Da Urca. Dos barquinhos. O Rio me faz bem. Me parece que aqui as pessoas são livres. Eu pude ser livre. E isso faz a diferença na vida das pessoas, não faz?

micheleleal1_felipe-oneillQuando descobriu que tinha talento para a música? Foi longo o caminho até você conseguir gravar sua primeira música? 

Que tinha talento, eu descobri tarde. Mas que eu amava, eu entendi muito cedo. Foi um longo caminho.

Bom, se formos começar sendo fiel à historia de vida, digamos que comecei a paixão pela música quando eu tinha uns 3 anos. Quando ganhei um pianinho rosa, de brinquedo, que vinha com um microfone junto. Aquilo me despertou com certeza a curiosidade e o gosto pela música. Mais tarde, com uns 7 anos, ingressei no coral infantil e, em paralelo, nas aulas de piano, o que foi crucial na minha formação teórica.

Grande parte da percepção musical e gosto foi desenvolvida ali. Com o piano e o coral, que eu amava de paixão. Podia chover canivete que eu estava no ensaio. Mais tarde, já com 14 anos, fomos para o juvenil. E essa fase sim, foi de maior assimilação musical, digamos assim. Uma enxurrada de coisas que eu aprendi eu levo comigo até hoje. De lá saiu o quarteto Sol, com as minhas amigas queridas do coral. Cantávamos em todos os cantos. Era uma delícia. Sem contar os laboratórios coral que fiz. Época boa. Muito aprendizado.

Logo depois, veio a época do vestibular e um momento de separação com esse lado do canto coral e vocal. Fui para o Rio e comecei então a compor. A explorar outros lados que eu até então não tinha mergulhado. Em 2013, fiz minha primeira canção: Jacarandá, uma visita às minhas memórias. Eu gostei do resultado e, sem pretensão, comecei a compor cada vez mais. Gravamos então o EP Jacarandá. Durante mais dois anos seguidos ao EP e ida da música para a novela, consegui me dedicar mais à música. Abandonei meu emprego e decidi fazer isso de vez. Escolha difícil, mas foi importante ter tempo para fazer as canções que hoje formam o novo disco “Peixe”. Sem essa dedicação, ele não teria nascido. Agora, estamos em turnê com o disco e eu me sinto muito realizada por ver o sucesso e repercussão positiva que este disco teve.

Quais são suas influências musicais? E quais são os discos que está ouvindo no momento e indicaria para seus fãs?

Nossa, são muitas as escolas. Em casa ouvia só coisa maravilhosa. Quarteto em Cy, Chico, Caetano, Dorival, Milton então, nem se fala. Clube da Esquina era uma fita que não parava de tocar. Já mais velha fui descobrir a grandeza de Elis Regina. Estudei muito ela. Ouvia já com ouvidos analíticos e de aluna. Hoje tenho navegado por outros mares, como Jards Macalé, os sambas da década de 50 (como Praça Onze, que está no disco). Descobri coisas incríveis, como Azymuth, Banda Black Rio e Mayra Andrade, uma cabo-verdiana maravilhosa, sou louca com ela. Elza Soares, com seu disco novo, Rafael Rocha, Passo Torto, Ava Rocha, Ney Matogrosso.

micheleleal2_felipe-oneillTenho ouvido muito essa galera ultimamente. Indico para todos a Mayra Andrade, que é de enlouquecer. Ela tem quatro discos maravilhosos. Sou fã dos dois primeiro discos, onde ela colocou mais sua raiz e mandou ver nas influências africanas e brasileiras. É uma coisa de louco. Ava Rocha está com um trabalho lindo agora. Seu segundo disco também está incrível.

Como o canto coral influenciou a sua formação musical e seu estilo de cantar?

O canto coral foi determinante na minha formação. Mas só consegui perceber o tamanho do benefício que me fez hoje. É muito legal entender a importância que isso teve. Foram anos de prática, de técnica vocal que hoje estão entranhadas em mim. Às vezes me perguntavam se eu tinha feito aula de canto e eu falava que não. Mas sim, hoje percebo que eu fiz. Foram duas vezes por semana durante 16 anos ou mais. Ou seja, não tem como não fazer diferença. Por isso há leveza na forma do cantar, na forma de impostar e de posicionar a voz. Claro que tem aquela coisa da vocação, mas a prática nos leva sempre pro caminho do melhor canto. Já não digo que tenha influenciado no estilo de cantar, porque esse venho em constante desenvolvimento. E o estilo depende muito da música, da intenção, da proposta. Então, cada música ganha uma forma e uma energia que difere todas elas na sua forma de cantar.

Com dois trabalhos no currículo, “Jacarandá” (2013) e “Peixe” (2016), ela se afirma como uma das mais belas vozes da nova música popular brasileira. O seu canto potente, sensível e habilidoso levou a canção “Jacarandá”, presente em seu EP de estreia, a se tornar trilha sonora da novela “Sangue Bom”, produzida pela Rede Globo e exibida em 2013 no Brasil e posteriormente em Portugal e Angola.

Você acaba de lançar um trabalho novo, Peixe, que se caracteriza por ser autoral, ou seja, no qual pode exercitar seus talentos de compositora, instrumentista e cantora. Poderia falar um pouco mais sobre a concepção do novo trabalho e no que ele difere do seu trabalho anterior, lançado em 2013, Jacarandá?

micheleleal2_felipe-oneillSim, Peixe é um álbum autoral, com apenas uma regravação, que é uma releitura de Praça Onze (Erivelto Martins e Grande Otelo), apenas de voz e bateria. Voltando à concepção, esse disco foi gravado de uma forma muito especial. Passamos uma semana imersos numa casa maravilhosa em Araras, no Estúdio do Pepe, e lá nos dedicamos a criar, tocar, experimentar, errar, acertar e enfim, não poderia ter sido melhor. Foi uma forma de conceber e gravar opostas ao meu primeiro trabalho. Dessa vez eu realmente entrei de cabeça e pude, como você disse, exercitar e realmente colocar a minha cara neste disco. Toquei os violões, a pedido do diretor Domenico, pois quando começamos a pensar nesse disco, ele me ouviu tocar violão e disse que ele seria o nosso norte. Que a maneira como eu tocava era única e traria uma beleza singular e muito própria. Então, todos os arranjos partiram desde violão. E foi isso aí.

A banda foi especialmente escolhida porque são músicos amigos e que tocam com a alma. São músicos que têm linhas melódicas lindas. Ideias muito coloridas e quentes. E cada um trouxe seu timbre e sua criatividade e fizemos juntos todos esses arranjos, sob a batuta de Domenico Lancellotti. Incrível o trabalho dele e principalmente a percepção em relação à dinâmica das canções e profundidade delas. Escolhemos os caminhos e intenções perfeitos. Foi muito bom porque toda essa energia boa das pessoas passou para o disco. E era isso que eu queria. Um disco quente. Um disco de águas quentes.

Peixe traz ainda a participação especial do violoncelista Jaques Morelembaum. Poderia nos contar como foi essa participação e o que os ouvintes poderão apreciar em cada faixa desse novo disco?

Sim, esse músico maravilhoso que é o Morelembaum me deu a honra de tocar nos meus dois trabalhos. Eu sou apaixonada pelo trabalho dele, desde pequena. A parceria começou através do baixista Jorge Helder. Ele o convidou pra gravar a faixa Poetisa (Rodrigo Saboya e Carla Reis) do EP Jacarandá e foi nos dias da gravação que eu o conheci. E a partir daí eu comecei a acompanhar mais de perto a carreira dele e quando fui gravar o Peixe, queria fazer cordas na última faixa, que é Sossego.

E quando pensei nisso não tinha como não ser ele. Um querido que não hesitou em chegar mais uma vez pra colocar sua alma no disco. Admiro o trabalho dele mais ainda porque gosto do processo dele também de gravação. Sempre sem partitura, que é uma coisa que eu amo. Ele chega a gente ouve e pensa juntos nas intenções. E depois é ele e sua alma ali, sabe? Ele toca de olho fechado, arrasando sempre. Não é uma gravação engessada com notas pontuadas e presas. Então podemos dizer que ele compôs ali, naquele momento, comigo. Sempre especial. Pessoa doce acima de tudo.

Bom, cada faixa tem sua peculiaridade. capa_michele_leal_finalMas temos para todos os gostos. Acho que isso ficou legal no disco. Eu pude passar por diversos estilos e mantendo como fio condutor a voz e o violão. Temos afoxé na primeira faixa, com Morena Marina. Temos alusões espanholas contemporâneas em Serpente Maravilha.

Temos um bolero disfarçado de rock em Mermão, com um sopro maravilhoso do Diogo Gomes. Depois vem o maracatu incrível de Peixe, com Thomas Harres e Domenico arrasando nas percussões e baterias. Uma história linda contada através de uma cantiga de ninar, Cantiga Pra João. 7×1 (sim, Brasil e Alemanha) é um instrumental/vocal lindo. Uma música tão bonita que nunca precisou de letra. não quis colocar. Só fiz um vocalize ali pra que as pessoas pudessem ver como ela é bonita assim. Sem letra.

Santa Praga é um samba rock vivo, de uma historinha bacana que aconteceu comigo em Santa Teresa. Praça Onze eu fiz só de voz e bateria, porque também não precisa de mais nada. Uma canção linda daquela tinha ser só eu e as baterias de Domenico e Thomas. Sossego vem pra fechar tudo. Uma canção que tem momentos lindos, que me lembra muito Suite dos Pescadores (Dorival Caymmi). O Jaquinho entra fazendo a tempestade junto com o baixo do Pedro Dantas. E depois o tempo se abre e acaba o disco.

O álbum “Peixe”, lançado em 2016, além da direção musical de Lancelotti, também conta com a participação especial do violoncelista Jaques Morelenbaum. Com suas 10 faixas, “Peixe” transmite um som vivo e quente, com muita brasilidade em suas letras.

Li que Peixe tem uma sonoridade viva e quente. Conta com músicas feitas para cantar alto e dançar junto. Isso quer dizer que é um disco de MPB dançante?

O disco tem sim uma sonoridade viva e quente. A música que é pra dançar é Peixe. Nos shows faço a turma se levantar e a gente cai na dança. Mas tá longe de ser um álbum de MPB dançante. Dançante acho que não é a melhor forma para definir o Peixe. Cantar junto sim, dançar junto sim também, mas para algumas músicas.

Veja o videoclipe de Peixe:

Quais são seus projetos a partir de agora? Pretende fazer shows, divulgar seu trabalho de que forma? Pretende também conquistar outros países e levar a sua música para outros povos? 

Temos muito trabalho pela frente. Quero rodar o Brasil com o Peixe, no curto e médio prazo. Chegamos agora de um show lotado no Teatro Municipal de Itajubá, minha cidade natal. Agora miramos São Paulo e Belo Horizonte. Neste meio de caminho, vamos nos organizando para o ano que vem chegarmos ao Japão. Meu trabalho está sendo muito bem valorizado e consumido por eles. Recentemente fiz uma entrevista para uma revista de Tóquio especializada em cultura latina e foi incrível. É impressionante como as coisas atravessam o oceano e chegam por lá tao rapidamente. Temos que levar esse disco para o máximo de pessoas possíveis.

Agora, um jogo rápido:

– um filme, uma música, um livro: Cinema Paradiso, Peixe, On the Road

– uma compositora brasileira: Dolores Duran

– um intérprete que faz você vibrar: Elis Regina

– um som internacional, um show: Mayra Andrade (Cabo Verde); show da Elza Soares (Mulher do fim do mundo)

– um amor: Minha família – Angela e Chicão (meu cachorro)

– uma cidade do mundo: Brazópolis (do meu mundo)

– família e amigos: Base de tudo pra mim. A vida sem eles pra compartilhar não teria a menor graça

– adoção de crianças: Quem faz tem minha total e completa admiração. Um ato de amor.

– casamento entre pessoas do mesmo sexo: Aleluia. Que sejamos felizes.

– tempo livre: churrasco com meus amigos na Urca.

– irrita muito: egoísmo.

– moda: não sigo. Sou mais eu (risos)

– uma provocação: preconceito

fotos: divulgação

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