Deusa ditosa, venha e nos salve da caretice e do tédio. Uma ode à patolagem!

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Cheguei ao teatro Fecomércio, sala Raul Cortez, em São Paulo com muita expectativa. Sim, era o texto despudorado do João Ubaldo Ribeiro, cabra arretado. E era a atriz Fernanda Torres, diva! De cara, o cenário é minimalista, uma mesa de vidro, uma cadeira vermelha, um livro, uma garrafa de whisky (ou seria conhaque?), um gravador de fita k7 e os budinhas, ditosos budinhas. Ditosos de quem possui dita, que está repleto de boa sorte ou felicidade. Eu fui muito ditoso de escolher esse espetáculo. A dita é minha e toda nossa.

Eis que adentra ao palco ela, a atriz. A Atriz com caixa alta, porque só pode ser definida assim. E ela começa o monólogo que, por ser um discurso solo, pode parecer que causará tédio… Sim, eu tinha medo de monólogos. Tive medo. Agora eu não tenho medo mais de nada. Muito pelo contrário, o texto espirituoso, safado e elegante, depravado e “causador” do João Ubaldo na boca e interpretação daquela atriz só poderia dar no que deu, uma sinergia plena, muitos risos e, a medida que o desfile de depravações/contestações aumentavam, só poderia gerar o desconforto na plateia de humanos. demasiado humanos, “entabuzados” com o incesto, o Tabu, também em caixa alta. Tudo pode, pode meter, pode trair, pode a três, pode gozar, pode suruba, pode… não pode com o irmão, com o pai, com a mãe… Não pode. Como o incesto ainda é tabu e talvez sempre o seja, o clima fica tenso, mas ardente e culminando no ato final, afinal “fuder é o que importa”.

João Ubaldo e sua Casa dos Budas Ditosos tinha que ser a bíblia libertária dos nossos dias. Sim, pois somos tão modernos e revolucionários, mas precisamos regrar o sexo, precisamos demonizar o que é natural, classificar o que pede pra ser livre. Essa energia não cabe em amarras. E a personagem de Fernanda Torres é uma mulher libertária, revolucionária porque não tem medo de viver e assumir que quer mesmo é gozar. Ela não prega isso a ninguém, só conta sua história e aí está a beleza da peça.

fernanda-torres-esta-na-peca-a-casa-dos-budas-ditosos-que-estreia-nesta-sexta-301112-no-rio-de-janeiro-1354307499719_300x420Em uma entrevista recente a um jornal carioca, Fernanda resume deveras bem toda a vibe do espetáculo. “É bom porque não é chocante, não é para esfregar na cara de ninguém o reprimido que ele é. Ela diz que fez o bem de muita gente, e fez, do público certamente; e que sonha com um mundo de sacanagem sem problema, embora saiba que seja dificílimo. A baiana do Ubaldo não tem nada de doutrinária, esse é o encanto.”

Com mais de 10 anos em cartaz, o monólogo conta a história de peripécias sexuais narrada por uma senhora baiana – que de “senhorinha” não tem nada – de 68 anos. “A baiana do Ubaldo nunca se deixou reprimir, não há magoa nela, ressentimento, ninguém fez bullying com ela na escola, portanto, não há vingança, não há mal estar, é só deleite, é só convite à imaginação”, diz Fernanda. Foi, é e sempre será um verdadeiro deleite. Desses como tinha que ser a vida.

E você, já patolou o colega ao lado? Já patolou hoje? 

 

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