Thiago Pethit: “eu rebolo muito. E se reclamar, rebolo igual a Valesca”

Thiago Fidanza da Silva ou Thiago Pethit, nasceu em São Paulo, cidade que escolheu para viver. Ator por formação, trabalhou com teatro dos nove aos 22 anos, mas também já foi garçom e teve vontades de ser tantos outros, quem sabe filósofo e até mesmo prostituto. Amante dos desajustados, mas não do amor romântico na versão Disney, Thiago começou a “brincar” com música no colegial e a brincadeira ficou séria a ponto de ter lançado seu terceiro disco, com trajetória aclamada pela crítica e sucesso entre um público mais alternativo, para quem pode ser sinceramente explícito. Para não ter dúvidas de suas clarezas, nem ser mal interpretado, assumiu a musicalidade que dá título a Rock’n’Roll Sugar Darling, com músicas e influências mais pesadas. É um trabalho de parcerias especiais: Joe Dalesandro é o muso inspirador e Adriano Cintra (ex Cansei de Ser Sexy – CSS) dá o tom, assim como o produtor musical Kassin.

E é assim que Thiago Pethit refresca e renova a música brasileira, bem longe de clichês e do politicamente correto. Ele imprime um olhar voltado para gente como ele, que não se encaixa. Se você é um esquisito, um verdadeiro outsider, ouça já, você vai gostar. E aproveite para conhecer um pouco mais o Thiago aqui nessa conversa franca com o Divercidade.

 

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Divercidade – Como você decidiu que queria ser cantor e compositor e como foi o início de sua carreira? Já fez ou passou pela sua cabeça fazer algo diferente na vida?

Thiago Pethit – Já fui ator. Me formei ator, estudei e trabalhei com teatro até os 22 anos (comecei aos nove). Já fui garçom também. E já passou pela minha cabeça ser professor de literatura, escritor, artista plástico, prostituto e filósofo.
A música era uma brincadeira no colegial, quando eu tinha uma banda de rock adolescente. Depois, conheci um grupo de amigos em São Paulo, todos músicos e no meio de uma crise profissional. A música me tomou por completo.

Seu disco anterior “Estrela Decadente” trouxe referências de um universo menos reflexivo e terno que “Berlim, Texas” pra entregar canções mais solares, de melodias mais intensas e ritmo fresco. Você chegou a denominá-lo, em entrevista à revista TPM, de “um disco explícito”. Nesse sentido, poderia falar um pouco do seu amadurecimento musical e escolhas atuais?

TP – Meus discos são sempre frutos da minha experiência pessoal e profissional. Em 2010, com Berlim, Texas eu estava começando. Nunca tinha feito um trabalho autoral e me inserido no mercado da música. Essa experiência me levou a uma frustração e uma crise comigo mesmo que resultaram no segundo disco, Estrela Decadente. Disse que esse era um disco explícito, pois ao contrario do meu primeiro, eu queria deixar tudo bastante claras as minhas intenções como artista e pessoa, nas letras e na musicalidade. O B,T foi muito confundido e mal interpretado, mesmo eu achando que eu tinha sido claro. E dessa vez, em 2012, eu não queria ter dúvida das minhas clarezas.

Esse disco já flertava com o rock’n’roll. Mas era um flerte. O show foi me deixando mais entregue a esse gênero e tornando as músicas e as influências mais pesadas. Posso dizer que eu gostei bastante ter sido explícito enquanto artista e isso foi o que me trouxe ao Rock’n’Roll Sugar Darling. Um disco mais explícito ainda, literalmente. 

Em seu mais recente trabalho “Rock’n’roll Sugar Darling” se aproxima do rock’n’roll, muito mais ácido, expressivo e cênico e conta com parceria com Joe Dalessandro, influência expressiva de Andy Warhol e o universo da Factory. Seu olhar está voltado para os criativos desajustados? Quem são os seus parceiros que tornam sua música tão rica e interessante e qual o papel de cada um no desenvolvimento do seu trabalho?

TP – Meu olhar sempre esteve voltado para gente como eu, gente que não se encaixa, que é esquisita ou estranha a um meio. Eu sou assim, me sinto cada vez mais assim. Talvez os discos estejam refletindo também esse gosto pelos ‘outsiders’ e desajustados.

Tenho poucos parceiros musicais, mas eles são as jóias do meu trabalho. Pedro Penna, Hurso Ambifi, Camila Lordy e Leonardo Rosa, são os músicos que me acompanham e que me aturam também nestes processos insanos. Os produtores Kassin, com quem já estou no segundo trabalho e o querido Adriano Cintra. Além do Joe, claro. Que é muso inspirador e introdutor do novo álbum.

-> ouça a música Romeo, aqui. Faça download da versão remix aqui.

 

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Pode falar um pouco de suas influências musicais e compositores que admira e sempre fizeram parte de seus projetos? Quem te inspirou ou inspira? Que sons está ouvindo no momento?

TP – São muitos os clássicos Iggy Pop, Lou Reed, Patti Smith, Caetano, mas tenho ouvido e me inspirado muito por alguns mais novos, como o próprio Adriano Cintra.

Aliás, como é o seu processo criativo? Escolhe o repertório já pensando em um conceito para os discos ou junta as músicas com significados diversos e pensa depois na “cara” do trabalho?

TP – As músicas só aparecem mesmo quando eu já tenho o trabalho conceituado. Em geral, tem sido assim. Eu faço uma ou duas músicas, entendo em que universo eu estou adentrando conceitualmente e daí passo a explorar aquilo que eu tenho vontade dentro desse ‘conceito’. Elas já nascem a serviço de uma ideia.

Antes de ser músico, você iniciou carreira de ator. Por que você preferiu a música? O quanto e de que forma a arte dramática está no seu trabalho musical?

TP – A música me tocou mais fundo. Não sei por que, acho que não é uma coisa que se explica. Eu gosto não só de fazer música, mas especialmente da maneira como um músico toca seu publico diferentemente de outras artes. O contato com o público é certamente o que mais me motiva. Eu sou por natureza, um artista de palco. Nunca estarei tão a vontade num estúdio como eu fico quando estou no palco. Isso certamente veio do aprendizado com as artes dramáticas.

Você morou em outros países? Quais? Cada lugar que você morou influenciou na sua forma de encarar o mundo. De que forma isso reflete na sua trajetória musical?

TP – Morei em Buenos Aires e em Paris. Mas já passei alguns meses estudando ou trabalhando em outros. Mas não considerei como ‘morar’. Não sei se ‘um lugar’ específico me influenciou, mas talvez a ideia de cidadão do mundo, ou de poder estar aproximado de muitas culturas, acho que isso sim acabou me influenciando mais.

 

Funk e rock brasileiro. Qual é mais rock’n’roll? Por que?

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TP – Vou contar uma pequena historia para ilustrar essa resposta: foi feita uma campanha publicitária de uma rádio paulista ‘que só toca rock’. Nesse filme de um 1 minuto, um padre exorcista (e roqueiro) tentava tirar do corpo de um muleque, o espírito obsessor do funk. E embora eu já tivesse pensado sobre isso, ali estava ‘crystal clear‘: o rock um dia foi chamado de coisa do demônio. Agora é ‘legal’ ele ser representado por um padre, branco, heterossexual como todos os padres, celibatário e virgem…  O funk acabou virando uma expressão daquilo em que o rock nasceu. Marginal, arte das minorias, dos negros, gays e mulheres. Portanto, o funk exercer o papel fuderoso desses rebeldes, e isso é mais rock’n’roll do que o padre virgem. Você sabe que no Brasil roqueiro não pode (ou não deve) rebolar néPois meu lema é: eu rebolo muito. E se reclamar, rebolo igual a Valesca. Hahaha.

Você tem um site na internet, fan page, twitter e outras redes sociais. Além disso, disponibilizou o seu disco nos serviços de streaming. Acha que é uma boa forma de divulgação? Aliás, qual a importância que você dá às redes sociais na divulgação de seu trabalho? Ser artista em um momento WEB 2.0 é diferente?

TP – Não é que é diferente. Um artista de web 2.0 é outra coisa que não um artista anterior a isso. Precisamos estar em todos os meios possíveis. Os streamings, os downloads, pagos e gratuitos, ter uma proposta artista que possa englobar também estes meios… Eu sempre digo isso, que, por exemplo, antes nós tínhamos o vinil que era lindo, grande e as fotos ficavam lá estouradas e dava até para enquadrar. Hoje, isso é para os amantes do vinil. Sobraram o CD e se muito. Pois em geral, sobraram mesmo os streamings… e as redes sociais. Por isso, quando eu penso em fotos de divulgação, eu penso em algo que seja amplo, bem feito e bonito, a tal ponto que seja tão legal quanto ter um vinil, poder me acompanhar diariamente pelas redes com as fotos e com a linguagem contínua e cotidiana do trabalho.

Em tempos de troca de arquivos pela Internet, como você acha que vai ser o futuro do CD? Como o artista pode ser remunerado quando todo mundo copia gratuitamente suas músicas? Acha isso bom ou ruim? O palco é seu mundo?

TP – Eu não vejo a hora de não ter mais a obrigação de ter um CD físico para estar dentro do mercado e ser levado a sério. Lá fora isso já está super-resolvido. Grandes artistas têm lançado apenas discos virtuais e vinis para poucos. Os artistas vão receber através dos shows. E de outras formas que vão se formar para sua, nossa, sobrevivência. Estamos todos tentando descobrir estes caminhos. E sim, o palco é meu mundo.

E sua vida pessoal, você fala sobre ela ou acha que isso não cabe ao público saber? É casado, tem filhos? Que importância tem a família em sua vida?

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TP – Não falo e não acho que isso seja importante para ninguém, nem pra mim. Odeio ficar falando de coisas pequenas da minha vida ou da vida dos outros. A vida é muito curta para viver e ainda falar sobre isso. Haha!

Não sou casado e não tenho nenhuma intensão de ter filhos. O mundo tá bem cheio já e eu não jeito para adotar uma criança. Então, melhor do que ser um pai mais ou menos, é não ser um.

Agora, um jogo rápido:

– um filme: agora, “Only Lovers Left Alive”.

– uma música: All Tomorrow’s Parties do Velvet Underground.

– um livro: Só Garotos, da Patti Smith.

– um poema: atualmente, qualquer um do Walt Whitman.

– uma intérprete brasileira: Gal Costa.

– um som internacional: Velvet Underground.

– um show: Nick Cave, em julho deste ano em Los Angeles.

– um amor: Qualquer um que deu errado, eles só servem para responder a essas perguntas .

– São Paulo: Cidade Mãe Medeia.

– Rio de Janeiro: Jamais será da minha família. Mas pode ser uma amiga.

– família: Uma instituição falida. Porque amigos pra mim são amigos. Não quero transformar nada em família.

– amigos: Pouquíssimos, mas ótimos.

– adoção de crianças: Por mim, ninguém mais tinha filhos. Todos adotariam.

– adoção por casais gays: Um bom pai, é um bom pai. Uma boa mãe é uma boa mãe. Dois bons pais são ótimos. E duas boas mães, idem. Sexualidade não tem nada a ver com isso.

– casamento homossexual: Pra quem gosta de casamentos, deve ser um direito.

– tempo livre: Faz tempo que eu desconheço.

– romantismo: O amor não é nada daquilo que você aprendeu lendo Sabrina ou assistindo a Disney.

– irrita muito: politicamente correto.

– moda: Quando não é só produto e mercado, é uma linguagem poderosa.

– provocação: é sempre bem vinda. Mas é sempre mal vista.

– uma frase ou pensamento para encerrar essa conversa.

Desvenda-me ou te devoro.

-> Acesse o site oficial do Thiago Pethit, clicando aqui.

-> Curta a fan page do cantor e compositor, aqui.

-> Conheça Joe Dalesandro, o muso de Pethit, clicando aqui.

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