Sálvia Haddad transforma a própria dor em crônicas de superação

Sálvia Haddad tem um cargo importante. Ela é procuradora do Estado do Amazonas. Mas engana-se quem acha que sua vida é burocrática. Por trás da funcionária pública, há uma escritora dedicada e profunda que acaba de lançar “Mel e Fel – Retalhos de Vida”. Sim, como o próprio nome indica, a obra não é nada solar, pois retrata um momento muito difícil vivido pela escritora: a perda de seu ex-marido que sofria de câncer, uma doença ainda avassaladora.

Ou seja, “Mel e Fel” foi escrito num período de extremo sofrimento e tristeza. Conforme revela Sálvia, nessa entrevista exclusiva ao Divercidade, quando se assiste toda a vida ruir, o que toma conta é mesmo a desesperança. “Todos esses sentimentos sobressaem na hora da leitura. Não tem jeito. Muitos dos textos escrevi enquanto chorava. Apesar desse fel, todos que leram dizem ter encontrado também o mel de minhas palavras”, afirma.

Se permitir viver a tristeza, respeitar o tempo da perda é o que nos faz melhores. É esse o legado de Sálvia. Afinal, “apenas a dor depurada e bem vivida permite o renascimento, e pra melhor”.

Confira agora nosso papo aberto e franco sobre as vicissitudes da vida e sobre a obra da cronista Sálvia Haddad.

Sálvia Haddad (3)

Divercidade – Sálvia, conte-nos um pouco de sua formação e trajetórias profissionais? Como sua formação permitiu que você chegasse ao ponto de se tornar escritora e contar histórias nas quais acredita?

Sálvia Haddad – Ingressei na graduação em Psicologia e Direito. Cursei psicologia por três anos e meio, e apesar de não ter concluído, esses anos me propiciaram conhecimento mais apurado sobre temas psíquicos. Sou graduada em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, pós-graduada em Direito Tributário e Direito Processo Civil. Atuei na advocacia privada, e após concurso público, passei a atuar como Procuradora do Estado. Acredito que o estudo do Direito incentiva bastante a leitura e também prima pela escrita correta e formal. Isso me ajudou muito na hora de decidir escrever.

“Mel e Fel – Retalhos de vida” é meu primeiro trabalho literário. A divulgação de meu trabalho se deu pelas redes sociais, mídia local, divulgação da editora, entre outras. Assim, pude ser conhecida entre os leitores.

Mel e Fel2. Seu mais recente livro, “Mel e Fel – Retalhos de Vida”, é uma junção crônicas que falam sobre o cotidiano do ser humano. Essas crônicas foram sendo guardadas até que você encontrasse o momento adequado para juntá-las e dar forma ao livro?

SH – Sim, essas crônicas foram sendo escritas sem preocupação com a ordem ou com que formato teriam ao final. Em 2012, reuni os melhores, textos, revisei e saiu Mel e Fel.

3. Gostaria de saber um pouco mais sobre a história do livro que foi marcada por uma grande perda, por uma tragédia pessoal, que foi a morte de seu marido por uma doença ainda implacável.

SH – Sempre gostei de escrever e iniciei o projeto do livro em 2010. Já em 2011, quando meu marido foi diagnosticado com câncer, encontrei na escrita uma forma de depurar todo sofrimento. Em 2012, já após sua morte, finalizei Mel e Fel. O livro traz as experiências mais fortes de minha vida.

4. Fale mais sobre as crônicas, que tipo de assunto aborda nelas e como a perda influenciou sua maneira de olhar o mundo e devolver essa energia de forma criativa em seu livro.

SH – “Mel e Fel – Retalhos de Vida” é um livro no qual escrevo minha visão sobre várias questões humanas. Alguns temas são autobiográficos, outros não, mas todos me levaram à reflexão: alegrias, paixão, dores, superação, morte, solidão, divórcio. Temas comuns a todos nós.

5. Apesar do momento que você vivenciou, podemos dizer que “Retalhos da Vida” é um livro que fale de esperança e de superação, acima de tudo? Há espaço para melancolia ou as pessoas vão encontrar pensamentos sempre positivos sobre a vida? Qual foi o seu aprendizado e o que quer deixar de legado para seus leitores e fãs?

SH – Mel e Fel foi escrito num período de extremo sofrimento e tristeza. Quando se assiste toda sua vida ruir, o que toma conta é mesmo a desesperança. Todos esses sentimentos sobressaem na hora da leitura. Não tem jeito. Muitos dos textos escrevi enquanto chorava. Apesar desse fel, todos que leram dizem ter encontrado também o mel de minhas palavras. O que eu gostaria de passar aos leitores é a importância de se permitir viver a tristeza, ter a sabedoria de respeitar o tempo da perda. Muita gente não entra em contato com suas perdas e dores, segue adiante sem olhar pra ferida que sangra. Isso adoece! Então meu aprendizado foi esse: apenas a dor depurada e bem vivida permite o renascimento, e pra melhor.

6. Em tempos de redes sociais, um escritor pode se tornar conhecido antes mesmo que seu livro seja publicado e lido. Gostaria de saber como faz a divulgação do seu trabalho na Internet?

SH – Antes do lançamento de Mel e Fel criei um site www.salviahaddad.com.br onde publico crônicas de Mel e Fel e também algumas inéditas, para que leitores possam conhecer meu trabalho. Também divulgo projetos culturais dos quais participo ou que recomendo. Também tenho minha fanpage no Facebook “Salvia Haddad – Escritora“, na qual sempre posto frases minhas, algumas de autores que gosto, sugiro livros, posto minhas reflexões no dia-a-dia, opino sobre questões do meu interesse, enfim, é um canal de comunicação direta comigo e com minha carreira.

Sálvia Haddad (2)7. A Internet, via redes sociais, tem seu lado positivo, que é conseguir apoio e visibilidade e falar direto com o público, mas ao mesmo tempo é meio que terra de ninguém: ou seja, as pessoas se revelam do jeito que são e como pensam, sem filtros, porque ainda não entendem que tudo o que se publica pode ganhar uma repercussão jamais esperada. Ou seja, na Internet, não é possível ser ingênuo e pensar que se fala para meia dúzia. É preciso de edição, mais do que nunca. Você concorda? Quais os canais digitais que mais utiliza?

SH – A responsabilidade deve envolver qualquer atividade realizada por um profissional. O uso da internet não fica fora. Quem a utiliza profissionalmente precisa ter consciência de sua importância e de seu alcance para usá-la de forma sempre favorável.

8. Também quero saber um pouco sobre o seu futuro e novos projetos. Já pensa sobre isso? Tem intenção de optar por outro gênero literário como um romance, por exemplo?

SH – Continuo escrevendo e não me vejo mais sem escrever. Meu segundo livro já está pronto, faltando apenas revisar. Mantenho meu estilo de cronista. Por enquanto, não penso em mudar de estilo.

9. Uma pergunta que foge um pouco do assunto principal, mas que tem a ver com a proposta do Divercidade: vivemos em um momento em que os preconceitos, a intolerância para com o diferente e a violência estão mostrando suas faces no Brasil, seja por meio da homofobia, por meio do preconceito de cor ou pela onda de linchamentos. A vida humana está tão banal que o ódio, a justiça pelas próprias mãos viraram rotina. Está faltando amor pelo outro? Na sua opinião, como resolver isso?

SH – De fato as atitudes de intolerância às diferenças tem crescido muito, na contramão, inclusive, da evolução da sociedade moderna. Quanto mais evolui-se em pensamento, mais se chega a conclusão de que a diversidade deve ser respeitada. Eu acredito que a falta de educação de qualidade leva à ignorância, que é a porta de entrada para a incompreensão da diferença. Não poderia deixar de mencionar que, aliada à educação, acredito que um ambiente familiar amoroso que estimula o respeito aos demais também é imprescindível para formar um cidadão que, mais tarde, não se sinta no direito de desrespeitar o diferente.

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