Entrevista exclusiva: Lilian Farias escreve romance homoafetivo e não tem medo do preconceito

Lilian FariasMulheres Que Não Sabem Chorar, de Lilian Farias, ainda não foi lançado, mas já gera bastante repercussão nas redes sociais. O livro despertou interesse de muitos e insatisfação de outros.

O texto conta a história de duas pessoas que se reconhecem como mulheres e que se amam em toda plenitude. Desse amor renascem sentimentos que outrora fora reprimidos: dores, curas e anseios sobre o próprio amar e ser amada. Duas mulheres que precisam quebrar o pior e mais severo dos preconceitos: aquele que habita em nossas entranhas! “Mais que uma relação homoafetiva, Mulheres que não sabem chorar nasceu dos meus 40 dias no deserto, durante todas as privações e isolamentos sociais. O deserto me ensinou a recolher e emanar as minhas ancestrais para me dar vida própria e encarar o mundo, depois soprei nas palavras da vida, que pulsava nas minhas veias, a força de Ísis”, comenta a escritora.

Por se tratar de um romance homo afetivo, algumas pessoas não concordam com a publicação do livro. No entanto, o lançamento oficial será na Bienal do Livro de São Paulo, em agosto deste ano. “Amo escrever sobre aquilo que incomoda, não tenho medo do preconceito”, afirma Lilian Farias.

O Divercidade quis saber um pouco mais sobre o livro, que está despertando tantas paixões e bateu um papo franco com a escritora, que você lê, com exclusividade, agora! Delicie-se e abra sua mente.

Lilian de Souza Farias é  escritora e professora/educadora. Nasci em Aracaju (SE). Mas é guiada pelo vento. “Hoje, estou residindo em Aracaju, mas amanhã…”

Divercidade  – Lilian, conte-nos um pouco de sua formação e trajetórias profissionais? Como sua formação permitiu que você chegasse ao ponto de se tornar escritora e contar histórias nas quais acredita, sem medo de ser feliz?

Lilian Farias – Minha formação é em Letras/Português pela UPE – Universidade Estadual de Pernambuco. Creio que ser escritor independe da formação técnica. Contudo, estava tão próxima dos livros e da literatura que a força de ser escritora transbordava pelos poros. E, nesse caso, confesso que o curso de Letras, mais precisamente a mestra Claudete, foram grandes incentivadores. Hoje, quando me perguntam sobre a minha profissão, respondo que sou escritora!

Você já escreveu outros romances ou peças literárias? Quais e qual foi a repercussão? Como se tornou conhecida entre os leitores?

Sempre fui polêmica em minha ideologia, desde criança, não poderia ser diferente na fase adulta. Lembro-me que na adolescência, na escola, os colegas de turma me chamavam de puta e vadia por não aceitar o ensino religioso na escola. Minhas poesias também já causaram alardes. E isso tudo também se materializou nos meus livros. Além de Mulheres que não sabem chorar (romance), pela editora Literata, eu escrevi Encontros para Liberdade (romence) pela Multifoco, que depois gerou uma 2ª edição com nova versão e título (O céu é logo ali) pela MODO Editora.

Sobre o “Mulheres Que Não Sabem Chorar”, gostaria de saber um pouco melhor sobre o que é a história, como surgiu a ideia de escrever esse livro e por que resolveu abordar o tema homo afetividade entre mulheres.

Mulheres Que Não Sabem Chorar‘Mulheres que não sabem chorar’ retrata a liberdade do amor, além de abordar as doenças da alma e como estas podem, por gerações, transformar amor em ódio, como podem nos cegar e nos deixar em estado constante de ira. Não é fácil ser humano num mundo onde o fundamentalismo pregou a violência, o preconceito e o ódio por séculos. Olga e Marisa, personagens centrais, irão viver do caos ao cosmo a força do verdadeiro amor. A homoafetividade surge devida a falta de interesse de rotular. Ansiava por um amor livre de barreiras e capaz de colocar as personagens em contato com o de melhor e o que pior existia nelas. Para isso, não posso me perder em rótulos, preciso falar de algo real.

Estou sabendo que, mesmo antes do lançamento, que será na Bienal do Livro de São Paulo, em agosto deste ano, o seu livro é polêmico, muita gente contra e a favor? Em sua opinião, a que se deve essa polêmica, ao preconceito que o amor entre duas mulheres ainda suscita na sociedade brasileira?

O preconceito na sociedade brasileira vigora devido à formação cartesiana e fundamentalista. E, infelizmente, até nas escolas, os professores educam para manter essa estrutura cartesiana e fundamentalista. O amor é algo normal, não existe absolutamente nada de bizarro nisso, o que é inacreditável, nesses casos, é a ira das pessoas para não lerem sobre o amor. Inclusive, muito afirmaram que o grande problema é que eu estou divulgando o livro e ensinado os jovens a serem homossexuais, ou seja, ensinando a promiscuidade. É perceptível nessas falas calorosas e mantidas pela ideologia cartesiana e religiosa que o que incomoda é o amor e ato de pensar livre.

Em tempos de redes sociais, um escritor pode se tornar conhecido antes mesmo que seu livro seja publicado e lido. É isso que está acontecendo contigo? A história viralizou e está causando reações inesperadas? Como faz a divulgação do seu trabalho na Internet?

Sim. Em tempos de internet, tudo é possível. Apesar dessas repercussões sobre meu livro me trazerem problemas, também trazem divulgação.  No início, ficava incomodada com essa perseguição “made in período medieval” ou “made in neonazismo”. Hoje é mais fácil lidar com a situação e divulgar minha obra para quem realmente se interessa em lê-la. Logo, utilizo todos os meios que estejam disponíveis a me divulgarem, de blogs literários e Facebook até às conversas casuais na padaria.

A Internet, via redes sociais, tem seu lado super positivo, que é conseguir apoio e visibilidade e falar direto com o público, mas ao mesmo tempo é meio que terra de ninguém: ou seja, as pessoas se revelam do jeito que são e como pensam, sem filtros, porque ainda não entendem que tudo o que se publica pode ganhar uma repercussão jamais esperada. Ou seja, na Internet, não é possível ser ingênuo e pensar que se fala para meia dúzia. É preciso de edição, mais do que nunca. Você concorda? Quais os canais digitais que mais utiliza?

Acredito que as redes sociais são um espaço ambíguo, contudo dá para fazer leitura de estruturação política. Visto que, o que podemos analisar não o que se posta, mas porque se posta… Dento desse viés, abre-se um campo analítico rico e fundamentado para Antropologia e para a Psicologia como outras Ciências Sociais e Humanas. O brasileiro, hoje, tem acesso a ferramentas de comunicação, que há dez anos não se imaginava, e talvez o que ele poste sejam suas carências políticas e ideológicas.

Utilizo o Facebook, Tumblr, Twitter e blogs.

No release do seu livro, disse que passou 40 dias no deserto, sofrendo várias privações. Foi uma viagem que fez e para onde? Por que no deserto? Estava buscando inspiração para escrever?

Essa é uma relação dialógica que faço com o introspectivo. Faço, também, referencia aos 40 dias no deserto de Jesus Cristo.  Precisei sofrer e chorar; ser visceral à materialização dessa obra, caso contrário, não poderia escrevê-la.

Você menciona também força de Ísis. Em que medida suas crenças, sua espiritualidade está presente na história?

Não dá para separar a minha ideologia dos meus livros. Mesmo não concordando com a postura de algumas personagens, não tem como separar. Ísis representa o caos e o cosmo que retrato em cada história.

Gostaria que você deixasse um recado para todos que ainda têm preconceito de gênero e orientação sexual em pleno século 21.

Tem gente que ama!

Lilian Farias_Mulheres

 

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