Renata Perón não quer ser mais uma! Por isso ela canta Noel Rosa com responsabilidade e leveza

Renata Perón, alterego de Sérgio Carlos Pessoa, começou em Juazeiro da Bahia-BA, quando em São Paulo, estava ocorrendo o boom das drag queens. Mas, não satisfeita, se mudou para a metrópole e, aquariana que é, não se contentou em ser drag. Ela canta e quer ganhar o público com os sambas de Noel Rosa. Não só para o público gay. Seu projeto é ser reconhecida no Brasil como a primeira drag que canta de maneira profissional… E sua história de vida encanta. Noel, pra começar, tem tudo a ver, pois ele sofreu preconceito por ser o primeiro “branco” a gostar de samba e Renata é a primeira drag que quer seguir carreira musical. O que vem pela frente: a quebra de tabus e preconceitos. Sim, ainda há! E Renata arremata: “Gostaria muito que as pessoas respeitassem as diferenças, pois não pedimos para sermos diferentes, apenas somos!” Conheça um pouco da história de vida desses dois, Renata e Sérgio. Enquanto ele não quer, ela é audaz. Por isso dá certo!

Com você, Renata Perón em entrevista exclusiva no Divercidade!

1. Nome completo e nome artístico. Que cidade você nasceu e onde escolheu para viver?

Sérgio Carlos Pessoa, RENATA PERÓN. Sou natural de João Pessoa-PB e escolhi para viver até os 26 anos em Juazeiro da Bahia, e da lá até hoje vivo em São Paulo.

2. Quando e como surgiu a idéia de ser drag queen como decidiu focar na carreira musical? Quais foram as dificuldades no início da carreira e quais foram os “anjos da guarda” para superá-las?

RP – Bem, eu morava nessa época em Juazeiro da Bahia. Logo que surtiu o boom das drags em Sampa (isso era por volta de 1993) com a Paulete Pink, Nanny People, Silvetty Montilla, Verônica, Dimmy e tantas outras que não lembro agora, as vi num programa de TV da Hebe  Camargo e pensei por que não criar em Juazeiro uma drag também… Criei a drag PERSONA QUEEN e fiz vários trabalhos por lá também sempre cantando e atuando, pois venho do teatro, onde fiquei por 10 anos. Eu sempre fui muito efeminada, portanto, quando ia cantar de menino, o público gostava mais e fazia chacota comigo. Então, foi aí que surgiu a idéia de fazer uma drag para que eu (Sérgio) pudesse realizar meu grande sonho que é o de cantar… Foi pela necessidade que surgiu a drag!

3. Se você não tivesse optado pelo glamour da profissão de drag queen e cantora, o que acha que teria feito na vida?

RP – Seria um empresário no ramo dos cabelos, pois fiz curso de cabeleireiro e trabalhei alguns anos na área. Mas as artes me chamaram!

4. Quais foram os trabalhos mais importantes que já desenvolveu? Dos quais mais se orgulha e por que?

RP – Olha, cada trabalho realizado é um orgulho. Agora, o mais importante, foi quando cantei junto com minha amiga Mariana Munhos o Hino Nacional na maior Parada do Orgulho Gay, aqui em Sampa. Isso foi uma coisa maravilhosa para mim, sempre tem o do coração – e é claro que esse que estou realizando agora é um grande projeto, pois é uma responsabilidade interpretar o grande compositor Noel Rosa.

5. Como surgiu a idéia de fazer um espetáculo mostrando a vida e obra de Noel Rosa? Acha que a obra dele está em sintonia com o respeito à diversidade? Poderia dar exemplos de atitudes, letras de músicas que revelem isso?

RP – Quando estava na minha casa inquieta – pois sou de aquário e não consigo ficar parada por muito tempo -, fiquei pensando o que fazer para dar uma guinada na minha carreira! Porque não estava satisfeita com o que vinha fazendo, queria alguma coisa que desse impacto, ai pensei: vou fazer algo totalmente diferente do que o público está acostumado a ver em uma drag queen. Vou fazer um espetáculo cantando… agora, o que seria? Comecei a  pesquisar tipos de músicas brasileiras como axé, pagode, dança de roda, ciranda, forró… aí cheguei no samba! Estava no Youtube e ouvi uma música do Noel chamada “Filosofia” e comecei a ver e ouvir muita coisa dele. Percebi que poderia fazer um espetáculo homenageando o Noel. Porque, na história da música, ele sofreu muito preconceito por ser branco e gostar de samba. Ai falei: esse cara deve ser lembrado por mim, pois sabia o que era sofrer preconceito.

6. O lançamento do espetáculo será no Vermont Itaim, para o público LGBT. Você tem vontade de levar o espetáculo para outros públicos? Quais são os próximos passos?

RP – Acredito que é algo realmente inovador no sentido de não querer apenas que o público gay veja,  pois o NOEL ROSA é “Patrimônio da Humanidade”! Então, quero sim mostrar para toda gente que é um trabalho feito com muito amor. Vamos deixar os preconceitos de lado e ver a magnanimidade da arte, isso é maravilhoso! Assim que lançá-lo, quero procurar uma gravadora que tenha a coragem de quebrar tabus ao lançar, pela primeira vez, uma drag queen cantora de samba do Brasil. Sonhar não custa nada! Kkkkkkkk.

7. Como foi a construção do personagem Renata Perón? Quem inspirou ou inspira a sua vida profissional? Em que o Sérigo Pessoa difere da Renata Perón e quais são as semelhanças?

RP – Quando cheguei em São Paulo, trazia a drag queen PERSONA QUEEN. Percebi que esse nome não era comercial. Aí, fui pensando em mudar para um nome menos bula de remédio (kkkkk). Conheci a grande drag queen chilena MAGDA FLOR e fiquei encantada com suas performances. Foi inspirada nela que surgiu RENATA PERÓN.
Sérgio e Renata, na verdade somos duas em uma, quando eu não posso, ela faz. Quando eu não quero, ele é audaz, talvez de Sérgio eu seja menos e de Renata eu me acho!

8. Qual o seu sonho para daqui a cinco anos e dez anos?

RP – Daqui a cinco anos quero estar em minha casa própria e, em 10 anos, com um grande amor, pois nesse tempo todo, até os 10 anos, vou estar “enfiada” nos meus projetos musicais com a pretensão de ser reconhecida como uma artista em todo o Brasil.

9. O que acha do estágio atual da luta pelos direitos LGBT. Temos muito ainda a percorrer? Qual seria a situação ideal na sociedade brasileira?

RP – Eu penso que estamos caminhando, apesar de ter sofrido uma agressão há três anos por um grupo de jovens, quando eu perdi um rim. E ainda creio que podemos fazer alguma coisa para mudar esse quadro de violência. Por exemplo, não se calando e denunciando, sem medo de falar. Quando a democracia caminhar “sem a religião”, podemos sim viver num país livre e justo. Temos muito ainda a percorrer e gostaria que o PL 122/06 fosse logo aprovada para que pudesse ter um pouco de paz.

10. Poderia falar um pouco de sua vida pessoal? É casado, tem filhos, namora? O que falta para ser plenamente feliz?

RP – Minha vida pessoal não é diferente: quando termino o trabalho, quero voltar logo para casa ver TV, programas legais, sou muito caseira, não tenho namorado e estou disponível (kkkkk). Agora, para ser feliz completamente, quero ser reconhecida não só no meio gay, mas sim em todo o Brasil.

11. Vi que você possui um site na internet, bem elaborado. Você acha que ser artista em um momento web 2.0 é diferente? É mais fácil divulgar seu trabalho? Você tem pefil no Twitter, Facebook etc. Se quiser, pode divulgar aqui.

RP – Para mim a dificuldade está no preconceito, pois as pessoas não acreditam que uma drag queen possa cantar e entreter sem ser apelativa e que deprecia. Agora, se você é uma pessoa livre de preconceito me chama (kkkkkk)!

Site: http://www.renataperon.com/

Blog: http://renataperon2.blogspot.com/

Twitter: http://twitter.com/#!/PERON2

12. Uma frase, idéia, ditado ou poesia para encerrar essa conversa!

RP – Gostaria muito que as pessoas respeitassem as diferenças, pois não pedimos para sermos diferentes, apenas somos! RENATA PERÓN!

Renata Perón estará no Vermont Itaim, dia 04/05, fazendo o espetáculo “Perón Conta e Canta Noel”. Para saber mais, leia outro post do Divercidade, aqui.

COMENTÁRIOS

    Naldinha Nunes

    Naldinha Nunes

    Realmente, muitoooooo boa a entrevista!
    Um exemplo para todos nós que ficamos lamentando por tão pouco.
    Desejo que a Renata alcance o que almeja e muito sucesso, ela merece!

    E meus sinceros votos de sucesso para você também André, que nos privilegia com entrevistas tão diversas, tão ótimas!

    Um super bjaum!

    Júnior Nóbrega

    Realmente, muitoooooo boa a entrevista!
    Um exemplo para todos nós que ficamos lamentando por tão pouco.
    Desejo que a Renata alcance o que almeja e muito sucesso, ela merece!

    E meus sinceros votos de sucesso para você também André, que nos privilegia com entrevistas tão diversas, tão ótimas!

    Um super bjaum!

    Júnior Nóbrega