13 anos de Grind na A Lôca! E André Pomba conta tudo em entrevista exclusiva

Há pouco mais de um mês da Parada do Orgulho Gay de Sampa, o projeto ousado, que revolucionou a noite paulistana – Grind – completa 13 anos, com direito a festa no domingo, dia 22 de maio, na A Lôca. E, para entrar no clima, o Divercidade bateu um papo com o jornalista, DJ e produtor de eventos André Pomba, o idealizador do Grind. Sem medo de ser feliz, ele fala sobre onde foi buscar inspiração para a noite que tirou o rock do armário, sobre militância gay, sobre a grande manifestação popular que é a Parada, relacionamento gay e o seu trabalho. Se você não sabe, Pomba não para. E não quer parar. Prova disso ele não tem medo de dizer… cinco pontes de safena! Cuidado e saúde, menino!

Fique agora como o multimídia André Pomba!

1. Nome completo e nome artístico, cidade onde nasceu e onde escolheu para viver.

André Luiz Cagni, André “Pomba”, nascido, vivendo e futuramente morto em São Paulo.

2. André, conheço um pouco de sua história como DJ e produtor de eventos, principalmente pela inusitada noite Grind, na Loca, um projeto pioneiro que tornou o mundo do rock’n’roll mais aberto às manifestações da sexualidade humana. Isso só para citar um dos projetos de relevância para o mundo LGBT. Gostaria de saber um pouco dos primórdios, como surgiu a idéia de criar o Grind e o que veio em decorrência disso?

AP – O Grind surgiu em maio de 1998, inspirado em uma viagem que fiz à San Francisco nos EUA aonde fui a um bar de rock GLS. No início, o projeto demorou pra pegar e era notória a divisão entre a galera gótica e indie, numa época que o rock era dado como morto e a música eletrônica dominava tudo. Creio que hoje o Grind é responsável por ter iniciado uma nova cena alternativa na cidade e quiçá do Brasil, sendo uma inspiração e primeiro passo para várias novas festas que surgiram do núcleo inicial. Vale a pena dar um chega no site www.grind.com.br que tem 75 edições digitalizadas do Grindzine, fanzine impresso que tratava da conexão rock e do universo LGBT.

3. Tão importante quanto a militância LGBT oficial é a ocupação de espaços nas diversas mídias para mostrar a realidade como ela é e, assim, desmistificar a homossexualidade. Gostaria de saber qual a importância que você atribui a todas essas iniciativas para a diminuição do preconceito contra a população LGBT.

AP – Acho que hoje em dia a militância tradicional, está sendo suplantada por uma nova galera mais ágil e participativa, ainda que infelizmente muito restritas às redes sociais, poucos saem pra dar a cara a bater, ainda.

4. Por falar em militância, porque os gays militantes brigam tanto? Eu cheguei a participar um pouquinho de alguns momentos e acabei saindo porque não aguentei tanta mesquinharia. Aliás, qual sua opinião sobre a militância?

AP – Na realidade, se briga muito na militância por conta de um partido – no caso o PT – que se acha dono de todos os movimentos sociais e que tudo que se faz no movimento tem que antes ser atrelado as conveniências partidárias.

andrepomba5. Muitos dizem que a Parada Gay foi totalmente descaracterizada, que virou uma festa gay, argumento usado para justificar o não comparecimento ao evento. Você concorda com isso? Política e festa não podem caminhar juntas?

AP – Na realidade, se condena a Parada Gay, assim como a Virada Cultural, por serem festas voltadas pro povão, mas são ótimos exemplos de inclusão. A Parada Gay serve muito bem à militância como demonstração de força e visibilidade. Sem ela, não teríamos tido tanto apoio, seja político ou da sociedade em geral.

6. Se não fosse jornalista, DJ e produtor de eventos, o que seria? Já pensou em fazer outra coisa na vida? O quê?

AP – Acho que poderia ter trilhado um caminho político, não necessariamente eletivo, mas trabalhando no setor público, que me atrai pela possibilidade de fazer algo diferente e efetivamente benéfico a alguma parcela da população.

7. Você se considera um empresário da mídia alternativa brasileira? O que você já conquistou e onde pretende chegar? Qual seu projeto para os próximos cinco ou 10 anos?

AP – Não sou empresário, tenho mais o perfil de um produtor cultural que também é DJ. Meus projetos incluem continuar crescendo na noite como promoter e DJ e que a ONG Dynamite se estabeleça como um projeto reconhecido, duradouro e abrangente, assim como auto-sustentável.

8. Como consegue conciliar todos os seus inúmeros trabalhos: projeto Grind + Prêmio Dynamite de Música Independente + presidência da Associação Cultural Dynamite + Mix Music + editor e principal mentor da revista de rock alternativo Dynamite + Dynamite Pub… (acho que tem muito mais, né?). Fiquei sabendo também que você organizou a última Feira Cultural que ocorre durante a Parada. Como foi essa experiência?

AP – Talvez minhas cinco pontes de safena expliquem meu pique eheheh! Amei organizar a Feira da Parada, acho que atendemos aos anseios de trazer atrações que agradassem as várias letrinhas do universo LGBT.

9. Como classifica o som que faz? Além de seu trabalho na A Lôca, onde é DJ residente, sei que você toca na Cantho. Quais as outras casas onde você discoteca atualmente? Faz trabalhos fora de São Paulo?

AP – Sempre digo que sou um DJ de pop e de rock que toca hits de todas as épocas e pra todo tipo de público. Tenho a agenda cheia de quinta a domingo. Além da A Lôca, toco muito na Cantho, Vegas, Cambridge, em vários eventos corporativos e festas particulares, e também fora de São Paulo.

10. Quando a revista Junior foi lançada, muito se falava que era uma Capricho gay. Hoje, a revista traz mais reportagens, mas o cuidado com a estética não foi deixada de lado. Como você considera a evolução da Junior, que público ela atinge e onde quer chegar?

AP – Nunca li uma revista Junior por inteira, tão somente algumas matérias, ou aquelas folheadas básicas. Mas, pelo que conheço dela e do Marcelo cia e do André Fischer, sei que sempre tem pautas interessantes e que fogem do status quo comum do meio gay.

5saus26ad5y32thtlaoegysxz11. Quando eu era adolescente, a “guetização” ainda era uma característica marcante no mundo gay. Isso começou a mudar. Hoje, a tendência é mistura e a prova disso são casas como a própria Loca, Vegas, The Edge e Glória, só para falar de São Paulo. Como você vê esse novo momento da cultura gay. É o prenúncio de mais liberdade?

AP – Com certeza. Antes o gay precisava dos guetos para expor sua sexualidade. Hoje não mais, daí a proliferação das casas “mix”, dos quais sem dúvida A Lôca foi a pioneira, por conta do seu espírito underground e por ir na contramão de tudo o que rolava na cena à época.

12. Você acha que o culto ao corpo, com a supervalorização do tipo bombado, está deixando espaço para a valorização de outros biotipos? A cultura gay poderá deixar de lado a superficialidade ou isso é inerente ao nosso jeito de se relacionar com o mundo?

AP – Acho que este culto ao corpo bombado e liso há muito deixou de ser um padrão pedrominante e o qual nunca me atraiu, pelo contrário. A cena gay também curte e celebra os ursos, os fashionistas magrinhos, existe mais diversidade com certeza.

13. Você conhece muitos casais gays com relação duradoura? Assim como os heterossexuais, muitos casais acabam adotando o modelo de relação onde ambos têm outros parceiros fora da relação e não revelam isso ao companheiro. Esse modelo tem dado muita dor de cabeça ao casais. Qual a solução para uma relação mais madura e que tenha a ver com a cultura gay?

AP – Toda relação implica em algum tipo de dor de cabeça. Pra mim, a relação aberta é mais honesta e é aquela que admite o que a fechada também faz e finge que não. E, por isso mesmo, creio que tem mais a ver com a cultura gay, que é menos hipócrita que o pregado pela heteronormatividade. Conheço muitos casais gays e de lésbicas com mais de uma década de vida em conjunto, não sei se existe uma fórmula, mas creio que mais compreensão e menos DR (discutir a relação), ajuda.

14. Web 2.0. O que é ser gay em um mundo em que tudo e todos estão interconectados via redes sociais? Como você utiliza as mídias sociais para sua vida pessoal e profissional?

AP – Meu lado gay sempre esteve muito ligado à Internet, mas nunca deixei de lado o mundo real, tipo bares, baladas etc, que são infinatamente mais práticas quando o assunto é relação pessoal, seja amizade, sexo ou mesmo namoro. E aí, que vejo que mesmo mais de 15 anos após o advento da Internet no Brasil, muita gente ainda fica limitada ao universo online. Em relação ao lado profissional, a Internet é intrinsicamente ligada a tudo o que faço, não tem como dissociar.

-> Siga o André Pomba no Twitter, aqui.

16. Sei que possui uma ONG que fornece cursos para a formação de DJs e inclusão social por meio da música. Gostaria que falasse um pouco desse projeto, quantas pessoas já foram formadas, patrocínio e objetivos para os próximos cinco anos. Aproveite para divulgar o site, Twitter e Facebook, que quiser.

AP – Sim a Dynamite é uma ONG que gere o CMIJ – Centro de Música e Inclusão para Jovens, que já formou mais de 800 pessoas em menos de 2 anos de atividades no Bairro do Bixiga em São Paulo. Você pode ter mais informações das aulas e dos projetos pelo site www.cmij.org.br. Minha inetnção para os próximos cinco anos é que a ONG seja reconhecida e auto-gerida sem depender de convênios com o Governo.

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Agora, um jogo rápido:

– uma série de TV: não assisto TV.

– um filme: qualquer um do David Lynch

– uma música: Enjoy the Silence do Depeche Mode

– um livro: Só as mães são felizes (biografia do Cazuza) – Lucinha Araujo

– a melhor publicação gay: A Capa

– uma banda nacional: Mutantes

– um som internacional: Queen

– um show: Iron Maiden (Rock in Rio 85)

– um amor: meu trabalho

– São Paulo: a melhor cidade do mundo

– Rio de Janeiro: uma cidade que eu amaria morar

– uma cidade cool: Amsterdam

– família: amigos

– amigos: a família que escolhemos

– adoção de crianças: uma prova de amor

– adoção por casais gays: mais necessário ainda

– parceria civil entre pessoas do mesmo sexo: uma questão de direitos iguais

– sexo grupal: why not? desde que a prevenção esteja em pauta

– tempo livre: cinema e teatro

– romantismo: não sou nada romântico

– irrita muito: pessoas sem perspectivas

– moda: sou um anti-fashion victim

– provocação: adoro provocar petistas em suas incoerências

– militância: levar as demandas LGBT e da área cultural pra dentro de um partido, no meu caso o PSDB

– uma frase para fechar essa conversa: Quero ver todos na festa oficial de 13 anos do Grind que será no dia 22 de maio na A Lôca!

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