“Seja quem você quiser, mas pague o preço por isso”: o jornalista Sérgio Ripardo retira da realidade os véus

Em uma conversa sincera e franca, o jornalista Sérgio Ripardo (@sripardo), cearense de origem, que começou sua carreira em Fortaleza, no Diário do Nordeste, e ficou conhecido na terra “das enchentes, não mais da garoa” com a bacana coluna Destaques GLS na Folha Online, foi editor da Ilustrada e escreveu o Guia GLS, pela Publifolha (ufa! e tem mais…) fala sobre sua trajetória profissional, as delícias e agruras da profissão de jornalista – nem sempre de reconhecimento e glamour –, militância gay, boom editorial, rumos da Parada Gay, relacionamentos e vida virtual e pessoal. Recentemente, passou por uma experiência difícil que somou insatisfação profissional com o fim de um casamento. Depois de um período de recolhimento, fez terapia e, agora, volta à ativa em um novo projeto, só entrevistando escritores e falando sobre livros, na Livraria da Folha. “É uma delícia”, afirma.

De volta à casa, Ripardo, com seus 30 e poucos anos (como este blogueiro que vos fala), está agora em busca de equilíbrio, deixando longe as encanações com a idade e pensando mais no futuro. Mostrando fôlego, ainda pensa em cobrir uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada. “Nos próximos 4 ou 10 anos, quero estar ainda com saúde para mergulhar em uma área nova. Mas não sou de planejar muito. Geminiano é um bicho muito impulsivo.”

Conheça um pouco mais sobre esse jornalista cheio de boas idéias, fundamentais para quem quer entender um pouco a “doideira” que é esse “nosso” mundo! Em entrevista exclusiva e sem cortes, para o Diversas Ideias!

Acompanhei sua trajetória frente à coluna Destaques GLS na Folha de São Paulo e passei a ler seu blog de forma assídua. Sempre gostei da forma franca como abordava os temas relacionados à sexualidade humana. Depois, percebi que saiu da Folha e começou a trabalhar na revista A Capa, momento que coincidiu com alguma crise pessoal, refletida em seu blog. Agora, sei que você está de volta à Folha, na parte editorial da Livraria. Gostaria de saber um pouco sobre o começo da sua vida profissional, a abertura que tinha para tratar da homossexualidade na Folha de São Paulo e, depois, sobre o que motivou sua saída de lá?

Sérgio Ripardo, jornalista, Maranguape (CE) – Em 2010, completo 15 anos de jornalisto. Comecei em Fortaleza, onde trabalhei nos principais jornais. Fui repórter especial e editor no grupo Diário do Nordeste, o maior de jornalismo lá. Em 2000, comecei na Folha, no caderno Agrofolha, depois fui para o FolhaNews cobrir finanças, até ser promovida a editor da Ilustrada do site em 2005. Em agosto de 2009, deixei o cargo para cuidar da saúde, avaliar novos rumos profissionais. A cobertura de TV estava cansativa. Não suportava mais cobrir temas como Big Brother, celebridades, acompanhar ibope de novelas, temas que os internautas mais buscam.

Você ainda escreve para A Capa? Não tenho lido mais seus textos lá. E na Folha, como se deu a volta? Está envolvido em outros projetos?

Ripardo – Tive uma experiência de alguns meses no site e na revista. Mas quando recebi o convite para trabalhar na Record, tive de sair de lá, porque o contrato era de exclusividade. Acompanhei os dois meses antes da estreia do portal R7, como repórter de economia. Foi muito legal, mas o ambiente do estúdio era insalubre, muitos refletores, não podia fazer barulho por conta das gravações dos telejornais. Mas depois do começo do portal, preferi pedir demissão, porque não suportava as condições de trabalho. Não fui o primeiro nem o último a pedir demissão lá. Aí a Folha lançou a Livraria da Folha, um projeto muito interessante, e acabei voltando. Por enquanto, estou só focado em entrevistar escritores e escrever sobre livros. É uma delícia.

Penso que a militância gay nem sempre tem a ver com os movimentos oficiais. Às vezes, pessoas, em suas profissões, com seus projetos culturais, fazem muito mais pela comunidade do que a militância oficial. Nesse sentido, o que pensa sobre a contribuição de seu trabalho como comunicador para as mudanças de estereótipos na sociedade referentes à sexualidade humana e questões de gênero?

Ripardo – A coluna Destaques GLS foi um projeto muito bacana, pois mapeou o fenômeno dos blogs confessionais de alguns gays e lésbicas, sistematizou semanalmente notícias de interesse do público GLS, que nunca teve um espaço interativo em um grande portal de notícias. A Folha já tem essa tradição de abrir espaços para a diversidade. Não havia uma semana em que alguém não mandasse um e-mail com sugestões, críticas e até pedidos de ajuda sobre sua sexualidade. Não acredito que uma coluna ou um jornal isolado exerça alguma influência relevante sobre algo tão complexo como é o movimento que reivindica a equivalência dos direitos. Fizemos apenas parte de um momento em que estava meio latente esse desejo geral de superar esse medo de falar de assuntos que ninguém imaginava ler em um site de notícias como a Folha.

Por falar em militância, porque os gays militantes brigam tanto? Eu cheguei a participar um pouquinho de alguns momentos e acabei saindo pq não aguentei tanta mesquinharia. O que você acha sobre a militância?

Ripardo – O bom de analisar as coisas depois de um tempo é sossegar algumas inquietações, aparar algumas arestas e opiniões. Hoje consigo ver que a militância gay briga tanto quanto qualquer militância, partido político ou grupo religioso, enfim, a briga vai sempre existir em qualquer meio em que se disputa liderança, em que seres humanos fragilizados por séculos de preconceito vão tentar suprir carências diversas na busca de atenção e de fazer valer sua voz. Acho que essa crítica contra as divergências eternas na militância gay não leva a lugar algum. Nunca fui militante, apenas convivi com militantes, li muito sobre esse processo e testemunhei desde a faculdade arranca-rabos históricos. É natural que muita gente fique desiludido com esses grupos. Mas temos de bater palma para quem consegue superar essas desilusões, essas decepções com a organização do movimento, sua partidarização excessiva. Não há militância perfeita, porque o mundo não é perfeito. E o conflito é necessário na busca dos argumentos mais fortes, no exercício da liderança.

Muitos dizem que a Parada Gay foi totalmente descaracterizada, que virou uma festa gay, argumento que muitos usam para falar que não vão mais ao evento. Você concorda com isso? Política e festa não podem caminhar juntas?

Ripardo – Essa é outra questão clássica da pauta gay. É tentador denunciar a carnavalização das paradas. Mas hoje vejo de outra forma: a festa é necessária para fisgar a atenção de todos. É da cultura brasileira esse espírito festivo. Nem a marcha do 7 de Setembro do brasileiro é contida. Não dá para baixar regras sobre isso. A parada nunca vai ter aquele clima Milk de ser, coisa de americano. É claro que pagamos um preço por tanta alegria. Os preconceituosos descrevem tudo como orgia, desqualificam as reivindicações. Mas, paciência, o processo de conquista de direitos é lento mesmo, cansativo, cheio de contradições. São humanos, não robôs.

Nos últimos anos, houve uma nítida popularização… Pessoas da periferia, gay e heteros, participam da Parada pelo motivo festivo. Na sua opinião, qual o futuro da nossa Parada?

Ripardo – A parada está cada vez mais comercial. Ninguém fala, porque pega mal, mas os organizadores da parada de SP estão mais preocupados em captar patrocinadores. Os sites gays e todas as empresas que investem no evento estão mais atendas em capitalizar aquela multidão do que no discurso, nas reivindicações, na agenda política. Essa é a realidade. A parada virou indústria, tem peso forte no faturamento do turismo de toda a cidade. Então, o futuro de algo que virou um negócio é continuar até que se esgote a fórmula e deixe de dar lucro. Como cada vez mais as pessoas precisam de pretextos para encontrar namorado, para viajar, a parada vai continuar por um bom tempo. Só que chamará menos atenção para quem busca no evento algo mais sério, como um fórum de debate político.

Qual sua formação? Quando e como você resolveu que investiria sua energia em projetos voltados para a comunidade LGBT?

Ripardo – Sou jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará. Também fiz curso de administração de empresas, mas larguei depois de um ano. Como repórter, me especializei em direitos humanos, sempre cobri questões sociais, denúncias, cobri muito seca no Nordeste, ocupação irregular do litoral, políticas públicas para habitação, recursos hídricos, enfim, sou o que se chama de “repórter de cidade”, aquele que suja os pés e vai ouvir quem perde tudo, quem morre de fome num temporal ou numa seca. Em São Paulo, vivi o outro lado da moeda, cobri a bolsa de valores, os balanços das maiores empresas do país, os bancos. O mundo GLS entrou na minha vida em 2005, quando comecei a trabalhar na Ilustrada e recebi o convite de escrever um guia sobre as baladas da cidade, no cotidiano gay, nos seus dramas e questões – me joguei no projeto, me aprofundei sobre esse universo tão distinto e ainda meio underground.

Já pensou em fazer outra coisa na vida? O que?

Ripardo – Sim. O jornalismo é uma profissão muito cansativa, desgastante. Com o tempo, você vai perdendo a energia, embora também ganhe uma percepção mais seletiva e críticas das coisas. Não me impressiono mais com as coisas como no tempo dos 20 e poucos anos. Mas é também algo viciante, principalmente para quem gosta de adrenalina, de novidades, tem muita curiosidade e um certo instinto para a aventura. Já sonhei em ser piloto de aviação, já saltei de para-quedas, sozinho, foi uma experiência inesquecível. Não tenho medo de altura. Mas quem sabe não consigo um dia pilotar pelo menos um helicóptero?!

O que você já conquistou e onde pretende chegar? Qual seu projeto para os próximos 5 ou 10 anos?

Ripardo – Eu não tenho muito apego a patrimônio. Gasto tudo em viagens, em festas, gosto de me divertir. Agora, perto dos 35, comecei a pensar nisso, em acumular algo para a velhice. Estou há três meses no desafio de entender como funciona o mercado do livro do Brasil. Em média, levo uns dois a três anos para dominar uma área. Depois, parto para outra área. Foi assim com o Agrofolha, com o FolhaNews, com a Ilustrada, com Destaques GLS. Nunca trabalhei em esportes. Gostaria de cobrir uma copa ou uma olímpiada. Também gosto muito da fotografia, mas nunca levei a serio. Nos próximos 4 ou 10 anos, quero estar ainda com saúde para mergulhar em uma área nova. Mas não sou de planejar muito. Geminiano é um bicho muito impulsivo.

Queria saber um pouco sobre o que aconteceu contigo nos últimos tempos, se quiser falar sobre isso, claro. Acompanhei o blog e percebia que vc estava passando por uma crise pessoal grave. Está mais forte?

Ripardo – Eu já passei por dois casamentos – um de 7 anos e outro de 4 anos. É difícil viver junto, seja amigo ou companheiro. No ano passado, eu estava muito insatisfeito com o trabalho, aquela rotina de publicar a toda hora notícias sobre tv, celebridades, a coisa com o tempo vai ficando muito chata, previsível, principalmente num país de “quase famosos”, em que qualquer BBB ou CQC se acham a última coca cola do deserto. Juntou tudo: tédio no trabalho, crise no casamento, taquicardia, excesso de peso, enfim, foi ótimo ter dado aquela parada de 1 ano. O blog virou diário, era onde eu despejava tudo, porque só meus amigos acompanham, e também porque depois eu apagava tudo. Quando se está em depressão, há um grande risco de você fazer coisas erradas, postar coisas que não devia, expor demais. E eu fiz todas, como um adolescente rebelde. Depois de um ano de terapia, deu pra entender o que eu estava passando: eu estava com medo de amadurecer, de me ver como um homem de 30 e poucos anos, de largar minhas referências juvenis. Agora, estou sossegado. Foi um processo muito doloroso, mas hoje sinto que estou menos encanado com a idade, mais preocupado em buscar uma serenidade, um equilíbrio. Não dá para pagar de gatinho pro resto da vida.

Nos anos passados, houve um boom editorial gay no Brasil: surgiram revistas como a Junior, Dom, Aimé. Neste ano, com a crise financeira internacional, vários projetos morreram, entre os quais a Dom e Aimé. Isso coincide com a crise na mídia gay lá fora, na qual várias revistas fecharam. Qual o futuro de nossas publicações gays?

Ripardo – Acho que foi um momento rico. O Brasil precisava experimentar aquele boom. Agora o tempo vai premiar quem persistiu, quem ouviu seu leitor, e não só o anunciante.

O que pensa sobre o projeto editorial da Junior, representa a comunidade gay? Há ainda o que evoluir em termos de profundidade dos assuntos tratados?

Ripardo – Não leio mais a Junior. Acompanhei as primeiras edições. Eles testaram muitas fórmulas e foram espertos em abrir mão do que não dava certo. Nesse setor de revista, dominam as fórmulas americanas. Isso não vai mudar tão cedo. Há muito medo de arriscar outras estéticas, pois o experimentalismo é perigoso para a saúde financeira das publicações. A Junior tem a vantagem de ser filhote do Mix, de ser porta-voz de um clã tradicional dos gays paulistanos. Então, com esse respaldo, tem mais chances de sobreviver, porque os modernos da cidade nunca vão deixar morrer algo que é vital para sua autoestima e seus projetos.

Quando eu era adolescente, a guetização ainda era uma característica marcante no mundo gay. Isso começou a mudar. Hoje, a tendência é mistura e a prova disso são casas como Vegas, The Edge e Glória, só para ficar em São Paulo. Como vc vê esse novo momento da cultura gay. É o prenúncio de mais liberdade?

Ripardo – É ótima essa mistura. Desde a geração emo, não vejo mais essa preocupação dos jovens com rótulos que eram comuns nos anos 80 e 90. Como eles cresceram com a internet no berço, não escandaliza mais ver dois homens se beijando nem duas mulheres. E até os meninos héteros levam a coisa numa boa, pelo menos aqueles que tiveram uma boa criação, de famílias que não satanarizaram a homossexualidade. Essa liberdade já existe, mas sempre tem de existir um problema, um conflito. No futuro, não será mais se alguém é gay ou hétero. A cultura de vanguarda meio que prenuncia as próximas questões urgentes, com o início precoce da vida sexual, o incesto, um assunto que está deixando de ser tabu, as pessoas, filmes e livros já estão falando nisso numa boa. É isso que vai dar cada vez mais polêmica.

Outro dia eu li que os sites de relacionamento ou “pegação” (Disponível e Manhunt, por exemplo) estariam aos poucos substituindo os pontos de encontro gays no mundo todo, motivo de fechamento de casas noturnas e bares. Essa tendência ainda não é muito grande no Brasil, que mantém mega casas gays como The Week, Flex etc. O que pensa sobre o papel desses sites, que por um lado facilitam o encontro, por outro, favorecem uma certa hipocrisia, já que pessoas que levam vida dupla acabam se escondendo por trás de perfis virtuais? É um momento de despolitização da comunidade?

Ripardo – Os sites de relacionamento são viciantes e funcionam como um negócio, e não como uma esfera política. Tudo começa gratuito, aí você quer ver mais fotos, e acaba fisgado, pagando. Quem tem compulsão sexual é uma mão na roda. Dá para marcar mais de um encontro por noite. Quando fiquei solteiro, testei todos eles. É realmente um laboratório do comportamento humano. Reparo, por exemplo, nos perfis de soropositivos, como eles falam de sua condição, às vezes na defensiva, como se sofressem sempre preconceito. Há ainda quem esconda o rosto, com medo de ser descartado. Enfim, sei que para alguém se aceitar é preciso se sentir amado. Os sites cumprem essa função de uma forma segura, embora conheço relatos de quem caiu em golpe de michê, que sofreu violência. Mas ninguém tem dúvida de que na rua o perigo é maior. Essa questão do relacionamento sexual, da intimidade, da angústia de viver num meio hétero e sentir um prazer por alguém do mesmo sexo, de ter medo de perder os amigos, de virar motivo de chacota na família ou no trabalho, enfim, essas dificuldades de sair do armário são legítimas e desafiadoras. Perdi mais de 10 anos da minha adolescência com esses dramas. Cada um tem seu momento para colocar um ponto final, para decidir o caminho que vai tomar, o da verdade 100% ou da chamada “hipocrisia”.

Web 2.0. O que é ser gay em um mundo em que tudo e todos estão interconectados via redes sociais? Como você utiliza as mídias sociais para sua vida pessoal e profissional? Voltará a escrever em seu blog?

Ripardo – Sou muito infiel com rede social. Começo, vicio, aí largo. Tenho amigos nerds que estão sempre me chamando para outro brinquedinho, outro site. Aí vou experimentando, brincando, na verdade. Deleto, passo um tempo longe do Orkut, do Twitter, aí um amigo me convida para escrever na rede social dele, enfim, não levo a sério essa coisa. Tem de ter essa liberdade, ou vira emprego, fica chato. Agora só escrevo no blog quando estou com algo para desabafar.

Você acha que o culto ao corpo, com a supervalorização do tipo bombado, está deixando espaço para a valorização de outros biotipos? A cultura gay poderá deixar de lado a superficialidade ou isso é inerente ao nosso jeito de se relacionar com o mundo?

Ripardo – Hoje essa ditadura do corpo está perdendo força. Há pelo menos um discurso em revistas condenando modelos muito magras, dando espaço para os gordinhos. Mas claro que é tudo da boca pra fora. Na arena da paquera, quem está muito acima do peso ainda sofre um bocado para arranjar companhia. As barbies estão meio fora de moda, por causa das bombas, das drogas, enfim, também envelheceram, os músculos desabarafam, as veias ficaram verdes, aí o que era lindo de ver acaba virando um monstro, um avatar. Isso não é exclusividade do mundo gay, mas a gente se liga mais em moda, em glamour. É superficial, mas sempre existiu e sempre vai existir.

Você conhece muitos casais gays com relação duradoura? Assim como os heterossexuais, muitos casais acabam adotando o modelo de relação onde ambos têm outros parceiros fora da relação e não revelam isso ao companheiro. Esse modelo tem dado muita dor de cabeça ao casais. Qual a solução para uma relação mais madura e que tenha a ver com a cultura gay?

Ripardo – Conheço gente com mais de 10 anos de casamento. Não sei se são felizes ou acomodados. Também temos amigos que depois de muito tempo se separam ou abrem a relação. Eu ficava angustiado em querer saber que tipo de formato dá mais certo. Mas hoje cheguei à conclusão de que quanto mais a gente se preocupa com isso mais tempo a gente perde. Encanamos à toa com o tempo, com dúvidas sobre quanto tempo vai durar. O ciúme é um cocô. Acaba com qualquer relação. Já passei por isso, e não desejo uma relação doentia nem pros inimigos. Acho que maturidade não tem a ver com orientação sexual. Também acho que, antes de embarcar numa relação a dois, precisamos cuidar dos nossos problemas de carência afetiva, cultivar o prazer em viver só, não jogar no outro todas as nossas expectativas nem frustrações. Não existem almas gêmeas. Não existe amor eterno. Só duas pessoas em avançado estágio de autoconhecimento, inteligência emocional e sinceridade com seus desejos e sonhos podem viver felizes a dois. Isso leva um tempo. A gente precisa aprender a engolir o orgulho, desativar as defesas, as nóias, as vaidades, e nunca imaginar que o outro vai nos completar, que não saberemos viver sem ele, que sua vida nos pertence. Viver só e feliz é bem mais díficil do que viver casado.

Jogo rápido

– uma série de TV: “A Sete Palmos” (ontem), “Dexter” (hoje)

– um filme: “Dançando no Escuro”

– uma música: “Big Time Sensuality” (Bjork) e “Chovendo na Roseira” (Tom Jobim)

– um livro: “A Experiência Homossexual”, da psicoterapeuta Marina Castañeda (salva qualquer gay da depressão e do suicídio)

– a melhor publicação gay: “Men’s Health” (embora não tenha saído ainda do armário)

– uma banda nacional: Titãs (anos 80)

– um som internacional: Tori Amos

– um show: B-52’s, Via Funchal, 2008, pré-separação

– um amor: o meu próprio

– São Paulo: vai pagar quanto?

– Rio de Janeiro: cidade siamesa (estrangeira e provinciana)

– uma cidade cool: Paraty, por causa das ilhas

– família: melhor à distância

– amigos: são sempre poucos

– adoção de crianças: só para quem gosta da ideia de família e tenha valores nobres para transmitir

– adoção por casais gays: só para quem já conquistou tudo, é generoso e sabe educar

– casamento homossexual: só para quem é craque em administrar bem dinheiro, vida e casa

– casais sorodiscordantes: não se fala sobre o passado, não se fala sobre o futuro

– sexo grupal: só com desconhecidos; com amigos vira piada

– tempo livre: dormir, dormir, dormir

– romantismo: dizer “eu te amo” só com os olhos

– irrita muito: quem subestima a nossa inteligência

– moda: na dúvida, use calça jeans com tênis e camiseta preta ou branca

– provocação: ninguém precisa saber que você é gay, só você

– militância: uma ideia romântica, mas necessária

– uma frase para fechar essa conversa ou para abrir outras: “Seja quem você quiser, mas pague o preço por isso.”

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