Jornalista mineiro resgata a história da primeira revista gay não pornográfica brasileira: a Sui Generis. E tudo a partir de uma “provocação”!

Foi a partir de um desafio proposto por um professor, uma provocação, que o estudante, hoje já formado, Reginaldo Alves Pereira, 24 anos, resolveu fazer seu projeto de conclusão de curso de Jornalismo em Juiz de Fora (MG) traçando um paralelo entre as revistas Sui Generis (publicada entre 1994 e 2000 pela carioca SG Press e distribuída em bancas de todo o Brasil) e a DOM (publicação recente da extinta editora Peixes). O projeto foi um sucesso, ovacionado pelos integrantes da banca.

O Divercidade entrevistou Reginaldo, que conta como foi resgatar a história da primeira revista gay não pornográfica que simbolizou um momento de abertura e conquistas por visibilidade LGBT na sociedade brasileira. Ele não quer parar de produzir conhecimento sobre o tema e o motivo é claro e perceptível: “ainda é preciso quebrar vários paradigmas” quando o assunto é homossexualidade. Confira o papo breve, franco e rico de informações!

Com vocês: Reginaldo Alves Pereira, 24 anos, jornalista!

1. Cidade que nasceu e onde escolheu para viver? Ou escolherá?

Reginaldo Pereira – Nasci em Divinópolis, interior de Minas Gerais. Morei quatro anos em Juiz de Fora e, atualmente, resido em Belo Horizonte, cidade na qual pretendo viver por um longo período ainda.

2. Gostaria que falasse um pouco sobre o seu projeto de conclusão de curso, que trata da revista Sui Generis. Como surgiu a idéia de abordar o tema? E porque uma monografia sobre a revista?

RP – A ideia para elaboração do projeto sobre as revistas Sui Generis e DOM surgiu de uma provocação, feita por um professor em 2008, período em que estudei em Belo Horizonte. Ele comentou com a turma sobre os poucos trabalhos relacionados ao universo gay que existiam no âmbito acadêmico, principalmente sobre as publicações. A partir daquele comentário, comecei a pesquisar sobre o assunto e percebi que o tema era pouco abordado em artigos, monografias, teses ou dissertações. Ao retornar para Juiz de Fora um ano depois, observei que havia alguns trabalhos sobre televisão, novelas, seriados e cinemas com a temática gay, mas nenhum abordava as revistas. Então, vi a necessidade de desenvolver um projeto sobre o jornalismo segmentado para o público LGBT, focado nas revistas que fugiam do viés pornográfico. Percebi a importância de se estudar o papel da Sui Generis e da DOM na representação do homossexual, além de avaliar quais eram as identidades veiculadas nas páginas daqueles títulos editoriais.

3. A Sui Generis foi a primeira revista não pornográfica, com um projeto editorial diferenciado que ousou aparecer nos anos 1990. Foi o início da retomada do mercado editorial para o público LGBT. Um prenúncio do que viria depois com Junior, DOM e Aimé. Aliás, dessas, só a Junior permanece, firme e forte. Infelizmente, morreu precoce, em função da falta de anunciantes e por conta de o público gay ainda não estar preparado para um produto editorial do tipo. Concorda com isso?

RP– Concordo! A Sui Generis parou de ser publicada devido ao preconceito de alguns anunciantes em querer associar sua marca à revista. Tanto é que 43% das publicidades veiculadas na publicação estavam relacionados à divulgação da própria revista. Em relação ao fato do gay estar preparado para um título editorial como a Sui Generis, acredito que, muitas vezes, o homossexual está preocupado com questões mais amenas, como moda, estética, viagem, entre outros. Nesse sentido, a editora SG Press criou um projeto ousado, por querer abordar outros assuntos, como militância política e cidadania. Outro fator que pode ser apontado como uma dificuldade é a questão da segmentação. A Sui Generis procurou abordar em suas páginas uma pluralidade de tipos, como homens, mulheres e transgêneros, indo na contramão de um mercado editorial que cada vez mais se especializa e se fragmenta.

4. Como foi elaboração do seu projeto? Encontrou muitas dificuldades ou sofreu preconceito na faculdade por ter escolhido esse tema? Tem alguma história curiosa para contar?

RP – Para fazer o projeto, tive muita dificuldade em encontrar uma bibliografia especializada. A intenção era entrevistar os profissionais que trabalharam na Sui Generis e na DOM, além das pessoas que compravam as revistas. A idéia era mergulhar fundo no assunto. Porém, não havia tempo hábil para isso. Em relação ao preconceito, não houve nenhum tipo de situação. Mas senti que algumas pessoas desdenharam um pouco, quando eu falava que o tema do meu projeto seria sobre revistas gays. Mas para mim, o apoio da minha orientadora, dos professores e das pessoas que se dispuseram a me ajudar foi essencial. Eu sabia que estava me expondo ao estudar as publicações voltadas para o público homossexual, mas valeu muito a pena!

5. E na defesa da tese, como foi? A banca gostou? Quais foram os comentários sobre o projeto?

RP – A defesa foi ótima. Não esperava que a banca fizesse uma avaliação tão positiva sobre o projeto. Os professores gostaram muito da linguagem utilizada, da descrição sobre as revistas e da estrutura do projeto. Foi muito importante receber incentivos da banca para dar continuidade aos meus estudos e continuar pesquisando sobre o universo LGBT.

6. Pretende prosseguir pesquisando sobre mercado editorial LGBT? Por que?

RP – Com certeza! Acredito que nos últimos anos houve uma ampliação dos discursos sobre a temática homossexual pelos meios de comunicação. O que eu considero um fator muito importante. Mas é preciso avançar muito. Quero estudar mais sobre a representação do gay na mídia, segmentada e não-segmentada, além de analisar os espaços midiáticos que os homossexuais conquistaram. O próximo passo é continuar a estudar o universo gay. No próximo ano, pretendo tentar o Mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, voltado para a área de identidades.

7. O que pretende para sua vida agora e daqui a cinco anos? Onde quer chegar como profissional?

RP – No momento, atuo em uma ONG – Organização Não-Governamental, que trabalha com comunicação, educação e políticas públicas. Pretendo aprender mais sobre o terceiro setor, fazer uma especialização e o Mestrado. Daqui a cinco anos… Espero que eu possa coordenar um projeto, e quem sabe, desenvolver alguma atividade que possa contribuir para a comunidade LGBT.

8. Evoluímos muito: Paradas Gays pelo Brasil todo, mas ainda não aprovamos a união civil. Vários países vizinhos saíram na frente, inclusive a Argentina. Ao mesmo tempo, ondas de violência e homofobia assolam grandes cidades como São Paulo. Acha que o caminho para uma sociedade mais humana, justa e pelos direitos iguais ainda é longo? Comente.

RP – Vivemos em uma sociedade heterocêntrica. Ainda é preciso quebrar vários paradigmas sobre a homossexualidade. Atualmente, os homossexuais têm 78 direitos negados se comparados ao heteressosexuais. As conquistas que temos, como por exemplo, união civil entre pessoas do mesmo sexo e adoção de crianças, são casos isolados no país. Estas situações deveriam ser estendidas a todos os gays. Nesse contexto, nota-se que a mídia assume um papel muito importante para “dar voz” aqueles grupos considerados minoritários, além de mostrar a luta homossexual pela legitimação da cidadania. Há muito o que se fazer, tendo em vista que o Brasil ainda lidera o ranking do número de assassinatos de homossexuais.

9. E sua vida pessoal, namora, gosta de relacionamento tradicional ou está aberto a novidades e experimentações? O que quer para sua vida afetiva?

RP – Eu namoro há quase quatro anos. Acredito na relação estável, em que duas pessoas que se gostam podem ficar juntas. Espero que oportunamente, eu e meu parceiro possamos desfrutar dos mesmos direitos que os casais heterossexuais, inclusive, adotar uma criança.

10. Uma frase para encerrar esse nosso breve papo.

RP – Conquistas sem riscos são sonhos sem méritos, Ninguém é digno dos sonhos senão usar suas derrotas para cultivá-los!

-> para falar com o Reginaldo, envie e-mail para reginaldoalvs@yahoo.com.br

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