“Contracorrente” é correnteza na direção da montanha Brokeback

Quando “O Segredo de Brokeback Mountain” foi lançado no Brasil, em fevereiro de 2006, eu me lembro da sensação indescritível quando vi aquela linda história de amor que tratava de hipocrisia e sobre como visões discordantes da identidade sexual, em diferentes níveis de compreensão, podem levar a um fim trágico e triste de uma vida não vivida em sua plenitude. Chorei muito no cinema, sozinho, e fui embora embasbacado com o diretor Ang Lee, de quem eu já era fã pelos trabalhos anteriores, e que me surpreendeu com a película.
Vi mais uma vez, comprei o DVD e assim se passaram os anos. Muitas coisas mudaram na minha vida… Inclusive eu aprendi a ser um pouco menos hipócrita com relação aos meus sentimentos. Comecei a namorar e essa história já vai fazer cinco anos, quase o tempo do filme.

Essa semana, como que um presente de aniversário de “casamento” fui cobrir a cabine de “Contracorrente”, do peruano Javier Fuentes-Léon e eu já sabia que assistiria a uma linda história, intensa, com referências ao cinema brasileiro (Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto) e até citações da teledramaturgia deste Brasil (Direito de Amar, com Lauro Corona, cujas cenas aparecem várias vezes na TV da casa do protagonista).

O que eu não sabia, e de novo fiquei surpreso, é que encontraria um novo e fresco Brokeback, sem montanhas, mas com mar e tudo o que a água simboliza de forma mítica e mística. E é na água que os personagens daquele vilarejo de pescadores, povo simples, mas não menos sábio, destinavam seus mortos, depois de um ritual muito específico. E é para esse ritual que se destina o algoz da paixão, depois que o protagonista, ensimesmado em seus preconceitos e convenções sociais e com medo de assumir seu amor, resolve de fato “ser muito macho para se assumir gay” e, aos olhos de todos, se apossa de seu amor já morto para dar-lhe o destino prometido… Mais uma vez o corpo liberta a alma.

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Se em Brokeback, Ennis Del Mar (Heath Ledger) viveu a vida escondendo seu amor nas montanhas, presenciando a morte de seu Jack e acabou solitário, em Contracorrente, é Miguel (Cristian Mercado) que vive situação parecida, cindido entre a vida de “macho” e pai – e ser plenamente aceito por seus amigos de bar e pesca -, ou viver a paixão com o fotógrafo forasteiro Santiago (Manolo Cardona), o Jack Twist do filme. Aqui, o realismo fantástico permite cenas memoráveis de liberdade e plenitude, mas é só quando o amor é um fantasma que ninguém vê, que Miguel se permite. O morto que vive na imaginação do protagonista é também o responsável pela mudança de atitude que culminará na emocionante cena de Miguel assumindo seu amor e dando-lhe o destino prometido rumo ao mar, no mesmo ritual tradicional, tranformado e transformando os olhos críticos do pobre vilarejo.

Aqui, como em Brokeback, os papéis femininos são fundamentais para o desenrolar da história e revelar toda a hipocrisia de uma vida dupla. Mariela (Tatiana Astengo) está memorável e emocinantemente latina em sua interpretação da mulher enganada. Saiu-se melhor do que Michelle Williams como Alma Beers Del Mar, em Brokeback, na hulmide opinião deste blogueiro.

Com toda sua tragicidade, o nascimento do filho de Miguel parece ser o alento para os corações abalados e revela: o mar pode trazer mais segredos e revelações do que a montanha. Viva a vida!

Contracorrente está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 08/04. Saiba mais sobre o filme acessando outro post do Divercidade, aqui.

Ficha técnica

Filme: Contracorrente (Contracorriente)

Duração: 100 minutos

Diretor: Javier Fuentes-León

Elenco: Tatiana Astengo, Manolo Cardona e Cristian Mercado

Gênero: Drama

Ano: 2009

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www.festivalfilmes.com.br

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