“A política tem que largar a caretice. E nossa geração precisa se engajar!”, por Alê Youssef

Música é tudo, mas vamos falar agora, de modo muito oportuno, um tantinho de política? Menos de duas semanas para as Eleições 2010, muita gente, mas muita gente mesmo não sabe em quem votar. Porque não conhece candidatos e propostas. E propaganda política quase sempre não informa nada, só piora a confusão na cabeça do eleitor. Para clarear um pouco mais, recebo aqui o Alê Youssef (@aleyoussef), candidato a deputado federal pelo PV, o partido da Marina Silva. Mas, não é por isso que ele está aqui, é por sua história de vida, sua vocação, seu engajamento, seus projetos… Seu olhar novo, totalmente assumido, escancarado para as questões mais importantes da nossa sociedade e da nossa cidade. Completamente sem caretice! Não falo mais nada, porque ele diz tudo aqui! Veja se não é um novo jeito de fazer política. Misturada com música, com arte, com vanguarda! Com você… Alê.

1. Nome completo, cidade onde nasceu e escolheu para viver.

Alexandre de Almeida Youssef. Nasci e vivo em São Paulo.

2. Vc é advogado formado pelo Mackenzie e sempre foi representante de turma. Esse talento para representar os anseios dos colegas já era o prenúncio de sua carreira política?

Alê Youssef – Acho que é uma questão de vocação. A política sempre fez parte da minha vida. Na escola como representante de classe, na Faculdade como Presidente do Centro Acadêmico, como assessor da campanha do Betinho de combate a fome e, depois, nas experiências de governo, especialmente como Coordenador de Juventude da gestão Marta. Mesmo nas minhas atividades privadas o aspecto público sempre esteve presente: no Studio SP, plataforma de lancamento de novas bandas, no Overmundo, espaço de difusão da nossa cultura e na minha coluna da Trip. Me atrai a ideia de transformação e de realizacão de projetos públicos. A política é o caminho para isso. Apesar de tudo de errado que vemos, precisamos ter estômago para ocupar os espaços de poder e fazer o que precisa ser feito. Nossa geração está chegando ao poder na mídia, nas agências, nos tribunais, nas empresas etc, mas não tem representação na esfera pública! Isso é um estímulo.

3. Vc foi coordenador de Juventude do governo Marta. Gostaria que explicitasse seus principais projetos de sucesso. O que gostaria de ter realizado que não conseguiu e por que?

AY – Fizemos muitas coisas importantes. A primeira foi colocar no mapa o assunto juventude, através de um órgão novo que acabara de ser criado. Desenvolvemos o Mapa da Juventude que fez um retrato bem definido do comportamento e dos grupos jovens da cidade. Os circuitos de música com shows em todos os cantos a cidade valorizaram o novo rock, samba e a música eletrônica que começava a ser produzida por aqui. O Agosto Negro foi o maior festival de Hip Hop da América Lativa. Fizemos muitos projesto de apoio ao graffiti e acho que isso colocou no imaginário da cidade essa arte como a cara de nosso centro urbano. Construímos 64 pistas de skate e consolidamos esse seporte que antes era completamente marginalizado. Fizemos também as Paradas de Música Eletrônica e o circuito LOVE POR SÃO PAULO, símbolo de eventos libertários que marcaram aquela época.
Falávamos muito sobre as novas profissões ou profissões jovens e hoje percebo que já era um esboço do assunto ECONOMIA CRIATIVA que tratamos na campanha.
O que não consegui fazer foi o projeto de estúdios urbanos, espaços destinados à gravação e apresentação de grupos artisticos, com gestão das comunidades, inspirado nas MAISON DE LA MUSIQUE do governo francês. Não rolou por falta de dinheiro.  Algumas ideias do projeto  foram incoorporadas ao projeto dos CEUs do qual participei ativamente. Depois, quando abri o STUDIO SP, foi uma espécie de experiência privada desse desejo público. Quem sabe ainda consigo realizar esse sonho pela cidade.

4. Fez algo mais na política que o habilite a ser deputado federal hoje? Ajudou na campanha da Soninha, fale um pouco dessa fase.

AY – Em 1999, fui pego de surpresa com um convite incrível. O Zé Carlos Dias foi nomeado Ministro da Justiça, e me convidou para ser seu assessor particular. Mudei pra Brasília e acompanhei o ministro nas situações mais diversas, em todas as capitais do pais e no exterior e participei de perto da discussão sobre uma nova e moderna política de segurança pública.

Em 2004, participei do lançamento da candidatura da Soninha à Câmara dos Vereadores, coordenei sua campanha e fui seu chefe de gabinete por dois anos.

Nas minhas experiências privadas o aspecto público também sempre foi marcante: no Studio SP, do qual sou um dos fundadores, criamos uma plataforma de lançamentos da nova música brasileira, revelando toda uma cena que hoje ocupa lugar de destaque. Participei também da criação do Overmundo – site multicultural e colaborativo feito para ajudar na difusão da cultura brasileira. Além disso, já faz tempo que sou colunista de política da revista TRIP.

Ultimanente os mundos da cultura e da política foram se reecontrando para mim. A graffiti invadiu MASP na exposição da choque cultural e conquistou o espaço que sempre mereceu, os Gêmeos e outros artistas que conheci pixando os muros da cidade, se tornaram reconhecidos internacionalmente; reunimos mais de mil pessoas no festival de política da Trip em pleno domingo de sol, e o Studio SP se inseriu num grande processo de revitalização da região que hoje ficou conhecida como Baixo Augusta – que até Bloco de carnaval rendeu, numa experiência fantástica de produção comunitária da celebração da diversidade e renascimento do bairro.

Participei de diversas experiências e convivi com personagens importantes nas viagens oficiais, nos gabinetes, mas também mergulhei a fundo no imaginário do underground da cidade e tive contato verdadeiro com a vanguarda. Sinto-me preparado, portanto, para juntar esses dois universos, que podem parecer muito distantes um do outros – mas na verdade não são, pois tanto a política precisa largar a caretice, como nossa geração precisa se engajar para ser representada.

5. Vc atuou em um governo do PT em São Paulo. Inevitável perguntar o que vc acha que aconteceu com o partido, que descolou sua representatividade dos trabalhadores e passou a práticas mais atrasadas na política brasileira. O que falar dos escândalos de corrupção?

AY – Acho que o partido sofreu uma espécie de overdose de pragmatismo. O topa tudo pelo poder virou o projeto principal. No momento em que se estabeleceu uma política de alianças muito ampla e muito divergente do que era o partido orginalmente, muita coisa mudou. Mas acho que esse não é um problema exclusivo do PT. O PSDB também tem aliados tenebrosos e quando estava no governo também cometeu desvios sérios. Essa briga entre os dois que faz com que cada um busque parceiros da pior espécie para aumentar o tempo de TV e as besas nas eleições, é terrível para o Brasil. Sobre os escândalos, acho que tudo é muito triste para quem ajudou a construir o partido.

6. Pq vc escolheu concorrer pelo PV? É o que melhor representa o “jeito diferente de fazer política” que se esperava de um partido como o PT, por exemplo? Qual sua relação com a Marina Silva?

AY – Antes de entrar no PV fiquei um bom tempo fora da política, me dedicando aos meus projetos culturais como Studio SP e o Overmundo.
Entrei no PV estimulado pelo Gabeira, politico que gosto muito desde os tempos do PT e também pela Marina Silva. A possibilidade de ingressar em uma estrutura pequena, mas cheia de espaço pra atuar, sem os vícios de um grande partido, com a bandeira moderna do desenvolvimento sustentável e com muita gente nova querendo atuar em busca de uma nova politica, foram marcantes na minha escolha.

7. Vc tem propostas que contemplam a população LGBTT e outras minorias? Poderia detalhar um pouco aqui?

AY – Primeiro, quero ser um representante que não foge da raia, ou seja, não tem medo de assumir suas convicções. Muitos politicos dizem apoiar a causa, mas chegam no período eleitoral e somem com medo de perder os votos dos conservadores. Precisamos atuar para que o Estatuto da Família, em trâmite no congresso evolua. Temos que garantir que o texto que prevê a união civil e o direito à adoção seja mantido e votado. Pretendo criar uma série  de acões de transparência no mandato (tramissão via web de tudo que rola, site colaborativo, escritorio aberto no Baixo Augusta) que vão aumentar muito a participação de todos no processo legislativo. Dessa forma, pretendo estabelecer vínculos fortes com a sociedade civil que quer mudanças. Precisamos trazer pra dentro do Congresso o potencial de mobilização que o público LGBT demostra nas Paradas. Além disso, precimos articular formadores de opinião, para que possamos quebrar resistências. Algumas experiências internacionais, de países com caracteristicas parecidas com as nossas, como a de Portugal por exemplo, devem ser levadas em conta e divulgadas.

Fizemos um grande debate no Studio SP, transmitido por streaming, sobre o direito ao casamento e à adoção. Já tem muita gente mobilizada e me ajudando, como o André Fischer do Mix Brasil (leia entrevista com o André Fischer para o Divercidade, aqui), grande amigo e parceiro de muitos projetos e também o Douglas do Casarão Brasil, que também declarou seu apoio à minha candidatura. Minha ideia de investir no conteúdo está acontecendo, ou seja, juntar na campanha, o máximo de informações para chegar no congresso amparado por propostas concretas e viáveis e também pelo apoio da inteligência social que conhece e apoia o tema.
Além disso, todos os materiais da minha campanha abordam os temas em questão. Como disse antes, escancarando minhas convicções. Acho que essa é a melhor maneira de atuar: juntando grandes questões  da nossa geração e as transformado em uma mesma bandeira. Precisamos ter cabeça aberta para o novo.

8. Vc está ligado com cena musical e artística underground paulistana. O seu Studio SP já revelou muitos novos talentos. Poderia falar um pouco desse lado empresário da noite engajado?

AY – Como disso na outra resposta, mesmo nas minha atividades privadas o aspecto púbico esteve presente e o Studio é inspirado nesse projeto público francês. Não faria sentido para mim um projeto sem impacto social. Fico orgulhoso de saber que a casa se transformou numa plataforma de lançamento de novos artístas.

9. O Studio SP foi transferido de Pinheiros para o baixo Augusta e contribui com a “revitalização do centro”, projeto antigo que não pode ser apenas um sonho em São Paulo.  Como vc avalia a atuação do atual prefeito nesse projeto tão fundamental para a cidade? O que falta fazer?

AY – Acho completamente equivocada a atuação do prefeito pois prioriza o que eu chamo de “política Sala São Paulo”. A contribuição que o Studio da à revitalização é igual à maioria dos pequenos negócios que invadiram a região de forma espontânea, capilar, de baixo para cima. O poder público não tem nada a ver com a real revitalização. Como disse, está preocupado em construir mega espaços destinados para a elite que vai e volta do centro com carrões blindados. A Cracolândia é um exemplo. Não mudou nada com os mega espaços. O que falta é ter uma visão de baixo para cima. Seguir os exemples de NYC que apoia Lower East Side e Williansburg e Londres que valoriza tanto Hackney/Shoreditch que vai levar as Olimpíadas de 2012 para o bairro. É preciso valorizar a cultura nova, de vanguarda, emergente e que realmente transforma bairros e coloca gente andando na rua. Não há revitalização sem gente passeando pelas ruas. O Prefeito deveria andar pela Rua Augusta numa noite dessas para entender do que estou falando. Quando me eleger, vou falar com ele sobre isso e levá-lo  para dar uma volta pela região.

10. Sua campanha é muito forte na Internet. Vc utiliza as redes sociais para divulgar suas ideias e projetos, artistas estão contigo? O que é ser candidato em tempos de web 2.0? Vai ser possível ganhar a eleição?

AY – Não seria candidato se não pudesse usar a internet na campanha. Não aceito dinheiro de empresa lobista, nem sujo a cidade por convicção. Odeio aqueles cavaletes horrorosos. Acho que estamos fazendo uma campanha muito diferente do convencional e se as pessoas que foram atingidas por nossas ideias passarem as propostas para frente, serei sim, eleito, o que seria incrível e contrariaria a política convencional. Vamos ver!

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11. O que pensa sobre questões delicadas como a descriminalização das drogas? Melhoraria o combate à violência urbana?

AY – Sou a favor da descriminalização e depois ir além com uma discussão séria sobre REGULAÇÃO das drogas. Acredito que um mercado regulado é a melhor maneira para rompermos com essa política de guerra que só favorece policiais corruptos e traficantes e mata milhares de jovens todos os anos.

12. E sobre o aborto. É um direito da mulher, independente das condições em que foi gerado o feto – com ou sem violência?

AY – Sou a favor do direito da mulher sobre seu corpo. Ela escolhe e sabe o que é melhor para ela. Apoio a descriminalização do aborto. Hoje fazerem um debate sobre isso no Studio SP às 20h. Todos estão convidados! Acompanhe o debate ao vivo, pela Internet, aqui.

13. E o seu olhar sobre a periferia? Tem algum projeto que contemple os menos favorecidos e esquecidos pelos governantes?

AY – Todos os meus projetos tem ênfase e foco na periferia. A Economia Criativa vai ativar um a cadeia produtiva que pode gerar muitos novos empregos para jovens sem oportunidade. E esses empregos não são subjulgados pela sociedade, como na maioria dos programas das Escolas Técnicas. Mudar a lei sobre drogas, tem impacto direto na periferia, a mesma coisa sobre aborto e garantia de direitos.

14. O que um governo Marina poderia representar de avanços para o Brasil?

AY – Marina é a presidente dos nossos sonhos. Ela representa um novo projeto para o Brasil e um novo jeito de fazer política, pois fala de valores muito diferentes daqueles que pautam a política de hoje. Marina é a delicadeza que precisamos. Com ela podemos construir um projeto leve, sem vícios e sem politicagem, baseado em um realinhamento histórico das forças políticas. Um governo de composição com as melhores cabeças. Sé ela seria capaz disso, pois não participa dessa guerra que virou a política brasileira, em especial o embate entre PT e PSBD.

Agora, um jogo rápido:

– um filme: Cinema Paradiso

– uma música: Hallelujah / Leonard Cohen

– um livro: O Homem sem qualidades/ Robert Musil

– um poema: O Poço – Pablo Neruda

– um compositor brasileiro ou compositora: Os dois: Chico e Caetano

– um intérprete que faz você vibrar: Céu

– um som internacional: Arcaide Fire

– um show: INSTITUTO & convidados

– uma novidade musical que promete: Tulipa Ruiz

– São Paulo: Noite

– Rio de Janeiro: Dia

– país do mundo: Brasil

– um amor: Corinthians

– família: Base.

– amigos: Refúgio.

– política: Vocação

– adoção de crianças: Sim

– adoção por casais gays: Sim

– casamento homossexual: Sim

– parcerias: Todas

– tempo livre: Fazer nada

– romantismo: Importante

– irrita muito: Injustiça

– moda: É cultura.

– provocação: Tanto a política precisa deixar de ser careta como nossa geração precisa se engajar

– uma frase ou pensamento para encerrar essa conversa…

“Agora cabe a essa geracão a responsabilidade de reivindicar e reinventar o futuro” Herbert de Souza – Betinho.

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