Cegueira às claras

Há algum tempo, comecei a ler o livro do Saramago, Ensaio sobre a Cegueira e parei. Angústia, foi o que senti… Enquanto a cegueira branca começava a se espalhar entre os personagens, eu não conseguia mais abrir o livro para continuar a leitura. Alguns anos depois, surge o filme Blindness dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, que vi neste domingo (28/09), com elenco internacional. A sensação foi bem parecida.

Angústia, quase desespero, com a situação a que chegam os humanos quando o caos desordenado é introduzido na cidade. Aliás, as locações foram na grande maioria em São Paulo, região central, Teatro Municipal, mas com tudo adpatado para a língua inglesa: viatura de polícia virou Police. A cegueira se espalhou por quase todos, essa nova cegueira branca, que não encontrava explicação na literatura médica. O governo resolveu colocar os novos cegos em quaretentena, em condições subumanas. O que se vê é um verdadeiro ensaio antropológico sobre o comportamento humano em confinamento. Cegos que se aproveitam da cegueira alheia para tirar proveito da situação. O personagem de Gael Garcia Bernal se autoproclama rei de um grupo de cegos. E, ganha fiéis servidores. Gente de má índole que vai ajudá-lo a dominar a comida e impor condições de troca para que os outros cegos pudessem se alimentar: primeiro, qualquer objeto, com ou sem valor, depois, as mulheres.

Nessa “horda” de cegos, quem tem olhos vira raínha. E foi essa a incumbência da única sadia no grupo dos cegos. A personagem vivida por Julianne Moore, protagonista da virada do filme, ou melhor, da “tesourada” que mudou o rumo do despotismo não esclarecido de alguns, resolveu fingir que era cega para poder ficar ao lado do marido, o oftalmologista. E lá, começou a ser mãe de todos. Mãe e mulher de fibra. Não à toa, ela também causou o incêndio apoteótico que trouxe a liberdade ao grupo.

Mas, ao ganhar o mundo, o grupo, agora formado por amigos íntimos, descobre que a cidade se transformara. A cegueira havia animalizado as pessoas, que agora disputavam o resto da comida de mercados pilhados. Lixo por todos os lados. Cães famintos se alimentam de um corpo humano. E vem a chuva libertadora. Esse é o momento do resgate da humanidade, simbolicamente representada por um cão carinhoso que vem ao encontro do grupo. De volta à casa, o banho restaurador retira qualquer sujeira do corpo, qualquer traço de animalidade e prediz: a cegueira branca estaria chegando ao fim. Fechando o ciclo, o primeiro cego volta a enxergar e proporciona a esperança ao grupo. O pesadelo haveria acabado? Todos voltariam a ver? Se sim, o que o filme não mostra, não sei o livro, voltariam a ver o mundo de outra forma, transformados! O ensaio não é o filme, é a nossa realidade. O filme, e o livro, são apenas alertas sobre o que estamos vivendo? Dá-lhe Saramago!

Salve, salve, Meirelles!

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